A roupa que João Gouveia, o único sobrevivente da tragédia no Meco, usava na noite fatídica, foi entregue à Polícia Judiciária (PJ) três meses depois e ainda se encontrava molhada. Imagens a que a TVI teve acesso mostram o traje académico entregue voluntariamente pelo dux da Lusófona à PJ. Dele, constava um par de calças, uma gravata, um colete, um gorro e um par de sapatos, que terão permanecido todo aquele tempo em casa do sobrevivente.

Foi a 7 de março, ou seja, três meses depois da tragédia, que João Gouveia entregou à PJ toda a roupa que usava na noite fatídica. Estava tudo molhado, de acordo com o relatório da Polícia Científica, enviado a 18 de março à equipa da PJ de Setúbal.

«Devo dizer que fiquei perplexo. Porque aquela roupa só faltava passar a ferro. O resto estava impecável. (...) Qualquer pessoa normal, sem estar nas lides da investigação criminal percebe que ao fim de três meses não há roupa nenhuma que se mantenha molhada», questiona Vítor Parente, advogado das famílias das vítimas.

«É natural. A própria água evapora, mesmo que esteja fechada. Era impossível que aquela roupa, encontrando-se molhada, fosse decorrente daquele trágico fim de semana. (...) Uma coisa penso que é evidente: aquela roupa nunca esteve no mar», acrescentou.

A roupa terá permanecido durante três meses em casa do dux da Lusófona. Terá sido João Gouveia a entregá-la voluntariamente à PJ.

«Mesmo que estivesse durante três meses molhada, acabaria por secar. (...) Três meses depois, com que ideia? Molhada com água do mar? Foi ao Meco de propósito para ficar com água?», questiona Fátima Negrão, mãe de uma das vítimas.

Comparando a roupa de João Gouveia com uma das capas pertencente a uma das vítimas, as diferenças são claras. «Se aquela roupa alguma vez esteve no mar, tenho muitas dúvidas. (...) Eu vi uma capa que lá estava e tinha um cheiro nauseabundo. Estava completamente seca e tinha sido apanhada na praia há cerca de dois meses», comparou Vítor Parente.

As famílias das vítimas perguntam agora como é que, tanto tempo depois, a roupa ainda permanecia molhada. Para estes familiares, tudo leva a crer que o traje de João Gouveia terá sido molhado uns dias antes de ser entregue à PJ.

«As próprias famílias já me solicitaram que, após a conclusão desta fase de abertura da instrução, agende uma reunião com o senhor Porcurador-Geral da República ou com a sua assessora, para demonstrar toda a perplexidade que foi este processo», adiantou o advogado.

O relatório da Polícia Científica acabou por detetar a presença de cloreto de sódio ¿ sal comum ¿ no traje académico entregue pelo sobrevivente, mas a verdade é que, em nenhuma das inquirições a João Gouveia, foi colocada a pergunta que se impunha: como é possível que, três meses depois da noite trágica, a roupa permanecesse molhada?

Seis jovens, todos alunos da Universidade Lusófona, morreram na madrugada de 15 de dezembro de 2013, arrastados por uma onda na Praia do Meco. O Ministério Público (MP) arquivou o inquérito ao caso em julho último, concluindo ter sido um acidente e não haver indícios de praxe.