Quem pertencia ao Conselho Oficial de Praxe Académica da Universidade Lusofóna era obrigado a assinar um termo de responsabilidade pelos riscos e danos que pudessem ocorrer.

Uma investigação TVI mostra as provas que apontam cada vez mais para um ritual de praxe que poderá estar na origem da tragédia do Meco.

Sabemos que o líder e os membros do Conselho da Praxe seguiam à risca um código de conduta baseado em reuniões secretas, levadas ao limite, com riscos assumidos e conhecidos.

Uma espécie de sociedade secreta com obediência cega às hierarquias, estatutos e regras próprias, controladas através de relatórios e fichas individuais, com perfis traçados de personalidade.

Em entrevista à TVI, os pais de Joana, uma das seis vítimas, dizem desconhecer por completo a existência do termo de responsabilidade assinado pela filha. O pai, Francisco Barroso, sublinha o facto do termo de responsabilidade ter o emblema da Universidade Lusófona: «A direção da [Lusófona] devia ter conhecimento disso. Acredito que eles saibam». Confrontada com o documento, a mãe revela que era «tudo envolto em secretismo».

Ao documento assinado por Joana Barroso juntam-se outros 17 a que a TVI teve acesso, todos assinados em outubro de 2012, e obrigatórios num código baseado em reuniões secretas, levadas ao limite com riscos assumidos.

A TVI teve acesso também a um relatório sobre um fim de semana idêntico ao do Meco passado em Santarém. Está datado de 16 de dezembro de 2011, onde participaram quatro elementos da comissão de praxe, um representante de curso. Joana Barroso com o nome de código «Guedes», e outro, «Pescadora», o nome de código de uma amiga da vítima, também estão identificadas no documento que as identifica como «pastranas», nome dado a quem está no segundo ano do curso.

Neste relatório, a mensagem era clara:

«Fazer um clique académico nos pastranos, ou seja, ensinamentos que iam para além de explicações em atividades ditas normais, tiveram que sentir tudo o que lhes foi transmitido, com dores, com choros...»

«Estávamos no meio da lezíria do Tejo e escondemos os carros. Dissemos que tinham que fazer o resto do caminho a pé. Elas muito assustadas no escuro, com cães a ladrar».

«Vamos testar como é que elas reagem em pressão, fomos para uma sala completamente às escuras. A comissão de praxe estava escondida no escuro a bater com a capa nas portas, no chão, nas paredes...»

Um dos veteranos pergunta a Joana: «Porque estás aqui? O que é para ti a base do academismo. Se a representante e a comissão se atirassem a um poço, também te atiravas?» O relatório conclui que «as respostas 'Guedes' foram muito renitentes, chegou ao ponto de dizer que não se atirava ao poço, ou seja, ainda estavam muito cruas. Após isto, deixámo-las a pensar, refletir e até mesmo chorar...».

«Levámo-las para a beira de uma piscina e perguntámos: 'Se eu me atirasse para dentro de uma piscina vinham comigo? Mais uma vez houve hesitação na resposta». Por isso o relatório refere que chegam a ser apelidadas de «aves raras».

«Quando a noite caiu, o medo e a pressão estava presente nas pastranas, medo do escuro, medo do desconhecido. Este fim de semana serviu para enfrentar os os medos, assim como os navegadores portugueses enfrentaram o Adamastor».

«Já quase antes de virmos embora, a representante do curso e a comissão de praxe, entraram para dentro da piscina para ver a reação das pastranas, se realmente hesitavam ou entravam. Fizeram o esperado, entraram sem hesitações o que fez com que tudo o que lhes foi feito e dito fez sentido».

Confrontados com estas descrições, os pais de Joana Barroso, dizem: «Foi preciso a minha filha morrer para descobrir uma coisa macabra destas, horrível».

Durante as atividades da comissão de praxe, todos os passos são controlados. Os telemóveis são desligados, com exceção do dux, que o pode usar. Não foi por acaso que João Gouveia foi o único a levar telemóvel para a praia do Meco.