O advogado de Renato Seabra, condenado por homicídio em Nova Iorque, não se mostrou esta segunda-feira surpreendido com as suspeitas de relação privilegiada entre um dos peritos que considerou o seu cliente imputável e o Ministério Público norte-americano.

Em causa está a possibilidade de uma relação privilegiada entre o neuropsicólogo William Barr e a acusação no processo que condenou o modelo português a 25 anos de prisão pelo homicídio do cronista Carlos Castro.

Um artigo do jornal «The New York Times» publicado no sábado, da autoria do jornalista Russ Buettner, refere que o especialista William Barr, de 56 anos, foi contratado pela acusação mais de 100 vezes em 13 anos, defendendo sempre a tese da Procuradoria de Manhattan.

«O artigo aponta muito claramente as falhas no testemunho do Dr. Barr, que tomou muitas liberdades que não estão suportadas por factos científicos», diz David Touger, advogado de Renato Seabra, salientando que a notícia refere as mesmas questões que ele levantou em julgamento.

«Muito sucintamente, o Dr. Barr diz qualquer coisa para apoiar a Acusação, mesmo que isso signifique descartar factos e teorias cientificas e confiar apenas em suposições e conjetura», salienta.

O especialista contrariou a opinião dos dois especialistas contratados pela defesa, que defenderam que o modelo português não tinha consciência que os seus atos estavam errados e que por isso devia ser considerado não responsável por razão de insanidade.

Na ocasião, William Barr defendeu que a doença mental de Seabra nunca tem origem súbita, contrariando o diagnóstico estabelecido no Manual de Diagnóstico e Estatística de Transtornos Mentais.

O americano chegou a testemunhar que o manual estava em revisão e que iria incluir mudanças nesta parte. No entanto, a nova versão do manual, publicada em maio, não incluiu alterações nesse ponto, refere o advogado.

Barr chegou também a afirmar que Renato Seabra fingira o seu episódio maníaco recorrendo aos conhecimentos que adquirira numa disciplina de psicologia, frequentada durante a faculdade, e que castrara o cronista social para o humilhar, adiantando que chegara a essa conclusão porque os cartéis de droga mexicanos faziam o mesmo.

Durante o julgamento, Barr afirmou que recebia entre 175 e 200 dólares (entre 130 e 148 euros, aproximadamente) por cada hora de trabalho ao serviço da procuradoria.

O júri acabou por concordar com o especialista e o modelo foi condenado a uma pena de 25 anos a perpétua, que cumpre numa prisão de alta segurança no estado de Nova Iorque, conta a Lusa.