A Comissão de Utentes e o executivo municipal de Arouca estão em protesto à porta do centro de saúde local desde as 05:00 desta sexta-feira, contra a falta de médicos, que obriga a esperas desde as 23:00 da véspera.

Teresa Rocha é uma das porta-vozes dos cerca de 17.000 utentes desse equipamento, 70% dos quais sem médico de família atribuído, e garantiu à Lusa que «todos os dias há gente que vem marcar vez para as vagas por volta da meia-noite e, às vezes, elas já esgotaram às 23:00».

«Isso quer dizer que quem chega aqui à meia-noite, à uma ou às quatro da manhã dá meia volta e vai-se embora, porque já não consegue ser atendido nesse dia», explicou a mesma responsável.

Isso «também quer dizer que quem chegou aqui antes das 23:00 e conseguiu vaga não tem outro remédio senão passar a noite toda ao relento, à espera até que o centro de saúde abra as portas às 08:00», acrescentou.

Os protestos contra a falta de médicos em Arouca têm-se prolongando desde 2012 e, em maio deste ano, provocaram mesmo uma manifestação da população local junto à sede da Administração Regional de Saúde do Norte, no Porto.

Depois disso, foram atribuídos ao centro de saúde dois novos médicos, em regime de prestação de serviços, após o que a autarquia anunciou que estaria disponível para complementar com um aumento de 50% o salário oficial dos profissionais que aceitassem fixar-se nesse equipamento - então com quatro médicos no total, quando o respetivo quadro de pessoal prevê oito e todos a tempo inteiro.

«Os médicos novos já se foram embora porque eram mal pagos e agora continuamos com dois a tempo inteiro e dois em prestação de serviço, mas o problema é o mesmo», disse à Lusa o presidente da Câmara Municipal, José Artur Neves.

«Os que cá estão não chegam para toda a gente e, diariamente, há aqui este cenário inclassificável, como o de uma senhora de 60 anos que fez 30 quilómetros de Alvarenga para cá, para ter uma vaga, e depois ficou toda a noite à espera na rua, em muletas», continuou o autarca.

Além de exigirem mais médicos em funções, os manifestantes pedem também a demissão de Ana Prata, a atual presidente do Agrupamento de Centros de Saúde (ACES) Arouca/Feira.

«Essa senhora revela uma total incapacidade para gerir isto», defendeu José Artur Neves.

«Trata desigualmente as pessoas da sua área de intervenção e autorizou, aliás, a saída de um médico de Arouca para o Centro de Saúde da Feira, quando a taxa de cobertura lá é de 100% e a nossa se fica pelos 35%», argumentou.

O autarca censurou também a recente «postura de evasivas» por parte da ARS Norte, que «continua a não colocar novos médicos em Arouca, mesmo depois de a câmara se ter disponibilizado para pagar um complemento de 50% ao salário desses profissionais».

José Artur Neves admitiu que, na prática, esse incentivo financeiro «é uma taxa de interioridade que o município está disponível a pagar» e considerou-a «de uma total injustiça», mas defende que essa medida «reflete bem a situação de desespero a que a Arouca chegou».

A demora na resolução do problema é ainda mais criticada tendo em conta a procura que o suplemento salarial proposto pela autarquia motivou.

«Já recebi no meu e-mail contactos de vários médicos que se disponibilizaram a vir para cá trabalhar e mesmo assim a ARS não arranja forma de os colocar no centro de saúde», revelou o presidente da câmara.

«Isto é tão absurdo que já começa a parecer provocação», afirmou.