Notícia atualizada às 18:00

O ex-ministro Armando Vara, condenado esta sexta-feira a cinco anos de prisão efetiva no processo Face Oculta, declarou-se «em choque» com a pena aplicada pelo Tribunal Judicial de Aveiro.

«Estou em choque, confesso, e a sensação que me fica é que a sentença não é sobre as acusações, não é sobre o que estava em causa. Eu acho que a sentença tem muito a ver com a minha circunstância», afirmou Armando Vara, adiantando não ser «apenas» a circunstância de ter sido ministro.

O antigo governante e ex-vice-presidente do BCP Armando Vara foi condenado na pena única de cinco anos de prisão efetiva, por três crimes de tráfico de influência.

À pergunta se este foi um julgamento político, Armando Vara respondeu já ter dito «muita coisa», referindo não querer dizer mais. Tomou depois a palavra o advogado Tiago Rodrigues Bastos: «Isto é de um desequilíbrio que não tem noção nenhuma, além da culpabilidade ou da não culpabilidade - como sabem eu acredito e estou absolutamente convicto de que ela [culpabilidade] não existe -, mas, para lá disto, isto é de um enorme desequilíbrio», afirmou o advogado que garantiu ainda ir recorrer da decisão.

«Eu seria hipócrita se não dissesse que me surpreende, como é evidente, surpreende-me. Vocês todos assistiram ao julgamento, estiveram aqui e creio que, em consciência, honestamente, nenhum de vocês diria que isto era possível de ter acontecido», argumentou. Para o advogado, «ninguém poderia pensar numa coisa destas».

A defesa de Armando Vara procurou provar que o ex-ministro do PS não recebeu 25 mil euros de Manuel Godinho como compensação pelas diligências por si empreendidas e a empreender em favor das suas empresas, mantendo que a acusação «não tem qualquer tipo de razoabilidade».

«Não acredito que nenhum tribunal do mundo possa retirar destes elementos probatórios uma conclusão séria sobre o que quer que seja», disse Tiago Rodrigues Bastos, admitindo que o processo «tem uma dimensão política» e que visava atingir o Governo de José Sócrates.

O processo Face Oculta está relacionado com a rede de corrupção que teria como objetivo o favorecimento do grupo empresarial de Manuel Godinho, nos negócios com empresas do setor empresarial do Estado e privadas. Envolve 36 arguidos - 34 pessoas e duas empresas - que responderam por centenas de crimes de burla, branqueamento de capitais, corrupção e tráfico de influência.

O Tribunal de Aveiro condenou todos os arguidos do processo Face Oculta.

Escutas vão ser destruídas na próxima semana

O Tribunal de Aveiro agendou para o próximo dia 8, a destruição das escutas feitas no âmbito do processo Face Oculta que escaparam a ordem de destruição do então presidente do Supremo Tribunal de Justiça (STJ) Noronha de Nascimento.

A informação foi avançada pelo presidente do coletivo de juízes, Raul Cordeiro, no final da leitura do acórdão do processo.

Nas escutas feitas durante a investigação do caso Face Oculta foram intercetadas, pelo menos, 11 conversas entre o arguido Armando Vara e o ex-primeiro-ministro José Sócrates, que foram mandadas destruir pelo então presidente do STJ, depois de o então Procurador-Geral da República (PGR) Pinto Monteiro ter considerado que o seu conteúdo não tinha relevância criminal.

Existem, no entanto, cinco «produtos de voz» (gravações) e 26 mensagens de telemóvel (SMS) que escaparam a esta ordem de destruição e que permanecem guardados num cofre no Tribunal de Ovar, como reporta a Lusa.

A Procuradora-geral da República já se mostrou satisfeita com o fim do processo Face Oculta.