Uma em cada três mulheres da União Europeia (UE) foi ou será vítima de pelo menos um episódio de abuso sexual, físico ou psicológico, conclui um estudo, alertando para os riscos que as novas tecnologias representam.

O maior estudo sobre violência de género alguma vez realizado na UE foi divulgado esta terça-feira pela Agência para os Direitos Fundamentais (FRA, na sigla em inglês), revelando a persistência do problema e um forte pendor de género: 97 por cento das vítimas de violência sexual, física ou psicológica são mulheres.

Portuguesas dizem que violência contra mulheres é «muito comum»

«É uma chamada de alerta: a violência afeta praticamente todas as mulheres», disse à Lusa a investigadora Joanna Goodey, em Viena de Áustria, sede da FRA.

As mulheres foram questionadas sobre as suas experiências de abusos físicos, sexuais e psicológicos, em casa, no trabalho, na esfera pública e também no espaço virtual (perseguição e assédio através da internet).

Nos doze meses anteriores à realização do estudo - com 42 mil inquiridas nos 28 Estados-membros da UE -, 3,7 milhões de mulheres foram alvo de violência sexual e 13 milhões de mulheres foram vítimas de violência física.

Os resultados dizem ainda que a violação dentro do casamento não é uma raridade e que uma em cada cinco grávidas foi violentada pelo parceiro atual.

Estes e outros indicadores revelam «claramente» que «os direitos das mulheres da UE não estão a ser garantidos na prática», resume o estudo.

Joanna Goodey não tem dúvidas: «Se estes dados dissessem respeito a um país fora da UE, haveria imensas declarações de indignação, mas isto é dentro da UE.»

Considerando que o combate à violência de género «não está entre as prioridades» comunitárias, a perita lamenta que o tema esteja a ficar «fora de moda», com a UE a preferir fazer campanhas focadas «em áreas particulares da violência», que, sendo «muito importantes», afetam menos mulheres.

A FRA não se limita a analisar os dados, deixando algumas recomendações, nomeadamente para lidar com o número de mulheres que, sendo vítimas de violência física e/ou sexual, não contactam as autoridades.

A «grande maioria» das mulheres recorrem aos serviços de saúde quando querem denunciar um caso de maus tratos e, por isso, «os profissionais de saúde precisam de ser treinados para saberem ler os sinais», sublinha Goodey, recordando que os centros de apoio, como casas-abrigo, são «subfinanciados» e só existem na capital ou nas grandes cidades.

«O abrigo mais próximo pode estar a uma distância de quatro horas de carro, enquanto toda a gente sabe onde fica o médico mais próximo», compara, frisando que as mulheres inquiridas aprovaram, por «grande maioria», que os profissionais de saúde passem a incluir, nas consultas de rotina, perguntas sobre violência, quando observam sinais que a indiciam. «Não é um assunto de privacidade», frisa.

Uma das novidades da pesquisa é a inclusão de «novas ou recentes» formas de violência de género, que recorrem à tecnologia, concluindo que onze por cento das inquiridas foram alvo de «avanços inapropriados» nas redes sociais e através de mensagens escritas de telemóvel (sms) ou de correio eletrónico (emails).

As mulheres entre os 18 e os 29 anos são mais vulneráveis, com 20 por cento das jovens a reportarem «ciberassédio», refere Goodey, recusando o argumento da «liberdade de expressão».