Uma especialista em VIH defende um maior investimento nas campanhas de prevenção da infeção junto das faixas etárias mais elevadas que, em parte, graças ao prolongamento da vida sexual, são cada vez mais tarde confrontadas com a doença.

A propósito do Dia Mundial da Luta Contra a Sida, que se assinala esta terça-feira, a internista Cristina Teotónio, do núcleo da doença VIH da Sociedade Portuguesa de Medicina Interna (SPMI), afirmou, em declarações à Lusa, que “a área sexual foi a que, de certa forma, foi menos sujeita a um rastreio e a campanhas de prevenção”.

“Todas as campanhas de troca de seringas foram muito bem direcionadas e eficazes, mas na área da transmissão sexual - até por algum tabu e mitos associados a esta patologia - as pessoas acharam sempre que era uma doença do outro.”


A internista acredita que tal “levou a que a área da prevenção a nível sexual fosse um bocadinho descurada ao longo dos anos” e para a qual defendeu um maior investimento ao nível do diagnóstico precoce, da prevenção e da educação.

Uma das maiores preocupações da SPMI relaciona-se com os casos de idosos que tardiamente e em fase avançada da doença descobrem que estão infetados com o Vírus da Imunodeficiência Humana (VIH).

“Numa pessoa idosa, muitas vezes andamos à procura de uma qualquer doença oncológica, pelos sintomas que os doentes apresentam, e não nos vem logo à cabeça que pode ser VIH e isso acontece: diagnósticos tardios em pessoas idosas.”


De acordo com o relatório Infeção por VIH, Sida e Tuberculose em números – 2015, mais de um quarto dos novos casos notificados em 2014 ocorreram em pessoas com 50 ou mais anos de idade e 6,5% em pessoas acima de 65 anos.

Cristina Teotónio defende mensagens específicas para este tipo de público: “Efetivamente, não é igual falar para um jovem de 18 anos do que falar para um indivíduo de 60 anos”.

Para as mais velhas, “a mensagem tem de ser dirigida de modo a explicar que em qualquer altura da vida pode haver uma infeção, porque não sabemos nos nossos relacionamentos, a história que está para trás das pessoas com quem hoje nos relacionamos”.

“O prolongar da atividade sexual mais tardiamente, com todos os fármacos que estão disponíveis hoje em dia, levou as pessoas a infetarem-se em fases mais tardias da vida.”


Para os mais jovens, a especialista sublinha a importância do papel educacional das famílias e das escolas no sentido da prevenção e proteção individuais.

Cristina Teotónio adverte: “Se nos anos 80 e 90 a doença VIH era um papão, com o aparecimento de fármacos muito potentes e do controlo efetivo da doença ela acabou por tornar-se uma doença crónica”.

“Se calhar, [tal] acabou por minorar um bocadinho os cuidados e as pessoas descuraram essas medidas de proteção individual e se calhar facilitam e correm riscos desnecessariamente.”

“A mensagem para os mais novos deve ser: isto trata-se, mas o ideal é não apanhar”, concluiu.

Ainda de acordo com o relatório Infeção por VIH, Sida e Tuberculose em números – 2015, em 2014 registaram-se 1.220 novos casos de VIH, dos quais 876 homens e 344 mulheres.