Quando os bombeiros de Alergaria-a-Velha chegaram à rua Egas Moniz, na última segunda-feira, pelas 17:15, encontraram o pequeno Guilherme, de 4 anos, estendido no chão, em estado muito grave. Ter-se-á debruçado na janela para espreitar os meninos que brincavam cá em baixo e caiu do terceiro andar. Guilherme é uma das cerca de nove crianças que sofre quedas com consequências graves por dia.

De acordo com fonte dos bombeiros e do INEM, Guilherme apresentava um quadro de politraumatismo, com traumatismo cranioencefálico, fraturas ao nível do fémur e do antebraço e também lesões na região pulmonar.

Guilherme caiu de uma altura de cerca de 15 metros. Tinha ficado em casa com a tia, de 13 anos, enquanto a mãe «se ausentou momentaneamente» para ir ao multibanco. A tia terá saído do apartamento para falar com uma vizinha e a porta fechou-se, deixando Guilherme sozinho em casa.

O acidente aconteceu enquanto a adolescente foi à rua chamar a irmã para que lhe abrisse a porta. Quando a mãe chegou à porta do prédio já encontrou Guilherme caído no chão.

O menino foi assistido no local pelos bombeiros de Albergaria-a-Velha e pelo INEM e depois transportado para o Hospital Pediátrico de Coimbra, com acompanhamento médico. Até à hora do fecho deste artigo tentámos, junto do hospital, saber a evolução do estado de saúde de Guilherme, mas tal não foi possível.

Janelas e varandas que matam

O que aconteceu a Guilherme é mais frequente do que se pensa. A APSI – Associação para a Promoção da Segurança Infantil revelou à TVI que está a ultimar dados recentes sobre este tipo de acidentes, que deverá ter prontos para divulgação no próximo mês. Nessa altura, deverá ser lançada uma campanha de sensibilização na Televisão, Rádio e Imprensa, para tentar diminuir os números.

Para já, vigoram os últimos dados, divulgados em 2011: de acordo com o Instituto Nacional de Estatística (INE), em 10 anos, morreram mais de 100 crianças e jovens na sequência de quedas. Mais de 40 mil precisaram de ser internadas. Ou seja, em média, cerca de nove crianças e jovens sofrem diariamente uma queda com consequências consideradas graves.

Entre 2002 e 2009, 31% das mortes resultaram de quedas de edifícios ou outras construções. A maior parte destes casos aconteceu com crianças até aos nove anos.

A APSI analisou as notícias publicadas na imprensa e, entre 2001 e 2009, registou 114 casos de crianças que morreram na sequência de quedas e verificou que as janelas e as varandas são os elementos que mais aparecem associados a este tipo de acidentes (38% dos casos), seguidas dos buracos e outras aberturas (10%). Mas os perigos espreitam ao virar da esquina. Literalmente, já que os números incluem também buracos na via pública ou poços, mas também quedas de equipamentos de recreio, de camas ou de mobiliário da casa de banho.

Outros casos

O caso de Guilherme traz à memória situações semelhantes. Em finais de julho deste ano, uma criança de três anos ficou gravemente ferida depois de cair da janela de casa, de uma altura de 10 metros. Foi em Viana do Castelo. O menino, socorrido pelos Bombeiros Municipais, foi transportado para o Hospital de Santa Luzia em estado grave.

Em fevereiro de 2012, um autêntico milagre: um bebé de 22 meses caiu do nono andar, no Peso da Régua, e sobreviveu. «Um pequeno bocado de areia e um plástico» ter-lhe-ão amortecido a queda. Quando os bombeiros chegaram ao local, encontraram o menino no chão, «consciente e a chorar com dores».

Em 2010, uma criança de oito anos ficou gravemente ferida, na sequência de uma queda de dois andares, no fosso das escadas da escola EB1 do Campo 24 de Agosto, no Porto. A queda aconteceu durante um intervalo das aulas e outras crianças assistiram.

Em Março de 2009, em Porto de Mós, um rapaz de nove anos caiu de um telhado de habitação para uma varanda e sofreu ferimentos graves.

Os conselhos da APSI

Contactada pela TVI, a Associação para a Promoção da Segurança Infantil deixa alguns conselhos para evitar acidentes e minimizar os efeitos. O primeiro conselho passa por nunca deixar uma criança sozinha, «nem por pequenos instantes». O conselho é válido para a questão das janelas e das varandas, mas também para quedas menores que podem acontecer dentro de casa: não deixar um bebé sozinho em cima de uma cama de adultos, de um sofá ou mesmo do muda-fraldas. Uma pequena distração, pode ser fatal.

Mas a APSI é ainda mais específica:
- Coloque limitadores de aberturas nas janelas.
- Verifique que as guardas das varandas são seguras (não têm barras horizontais ou outros elementos que possam servir de escada, não têm aberturas maiores que nove centímetros e têm, pelo menos, 1,10 metros de altura).
- Proteja as varandas que não são seguras com um painel rígido e resistente, por dentro das guardas.
- Coloque cancelas nas escadas, em cima e em baixo.