Uma avaliação feita na Universidade de Aveiro aos capacetes homologados demonstra que, quando os motociclistas sofrem um impacto, mesmo a 25 quilómetros hora, a proteção é insuficiente, estando as normas desajustadas.

De acordo com um estudo hoje divulgado por aquela universidade, traumatismos cranioencefálicos, perda da consciência, distúrbios na memória, cefaleias, náuseas, vómitos e disfunções visuais são algumas das consequências para os motociclistas, em caso de acidente.

A avaliação foi feita em Aveiro considerando o impacto em capacetes certificados, à venda em qualquer loja, mesmo quando ocorre entre os 25 e os 30 quilómetros por hora, a velocidade imposta aos testes de qualidade pelas normas internacionais.

Durante a avaliação da capacidade de proteção dos capacetes, os impactos simulados por Fábio Fernandes, a fazer o doutoramento do Departamento de Engenharia Mecânica da Universidade de Aveiro, foram os utilizados pelas regras internacionais para permitir ou não a entrada no mercado dos capacetes.

Segundo o investigador os resultados foram elucidativos do desajustamento das normas: «as lesões previstas com grande probabilidade de ocorrência na minha análise foram concussões e lesões axonais difusas».

Durante o estudo, Fábio Fernandes, para além de ter utilizado modelos reais e virtuais de capacetes certificados, fez uso de modelos de cabeça humana para prever as lesões que decorrem dos impactos em situações de acidente.

As lesões foram previstas para impactos a uma velocidade «entre os 25 e os 30 quilómetros por hora» e Fábio Fernandes salienta que «impactos a velocidades muito superiores estão sempre a acontecer e os resultados podem ser devastadores».

Para Fábio Fernandes «os capacetes atuais são capazes de passar nos testes das normas mas, na realidade, falham como meio de proteção», concluindo que os testes utilizados na certificação de capacetes «não são os melhores» e «não é correto» o critério de certificação.

«Algo tem de mudar no design dos capacetes atuais, que têm sido projetados para passar em testes cujo critério de avaliação não é adequado», diz.

O investigador admite que a falta de atualização dos critérios de certificação poderá estar relacionada com as dificuldades dos fabricantes em se adaptarem a novas regras: «se isso acontecesse as marcas teriam de fazer novos investimentos em equipamentos de teste, bem como no design dos capacetes, levando a uma procura de novas soluções a nível geométrico e de material».

A avaliação feita aos capacetes no mercado surgiu no âmbito de um estudo mais vasto de aplicações da cortiça do Departamento de Engenharia Mecânica da UA, que aponta a cortiça como alternativa ao poliestireno expandido (EPS), o material mais utilizado como revestimento interno dos capacetes.

«A cortiça é um material natural, capaz de absorver grandes quantidades de energia e enquanto o EPS absorve a energia deformando-se permanentemente, o que quer dizer que após um primeiro impacto, este não oferece qualquer tipo de proteção ao utilizador, a cortiça é capaz de proteger os motociclistas em impactos mais fortes e também em impactos subsequentes devido ao seu retorno elástico», conclui Fábio Fernandes.