Os «diários» do George Orwell são pela primeira vez publicados em Portugal concedendo ao leitor uma autobiografia que o escritor britânico nunca publicou.

Os onze cadernos de Orwell foram escritos entre 1931 e 1949, sabendo-se que existem outros dois com anotações diárias da permanência na Guerra Civil de Espanha (1936-1939), mas que foram apreendidos pela polícia política de Estaline e encontrando-se ainda nos arquivos do NVKD em Moscovo.

Além das referências às viagens de juventude, as nota publicadas referem-se à vida dos mineiros e dos trabalhadores migrantes, no «Diário da apanha do lúpulo» e do extenso «O Diário de o caminho para o cais de Wigan», no País de Gales, e que deu origem a um livro, mas também as impressões regulares sobre a ascensão dos regimes totalitários, nomeadamente Alemanha, União Soviética e Espanha, e que foi inspiração para as obras «O Triunfo dos Porcos» e «1984».

Acompanhando a atualidade política antes e durante o conflito que se prolongou entre 1939 e 1945 em todo o mundo, George Orwell interpreta com regularidade as formas de poder e as relações com os cidadãos.

«No meio de uma batalha medonha em que, suponho, milhares de homens morrem todos os dias, fica-se com a impressão de que não há notícias. Os jornais da tarde dizem o mesmo que os da manhã, os da manhã dizem o mesmo que os da noite anterior, e a rádio anuncia o que vem nos jornais», escreve no dia 08 de junho de 1940 criticando, ao mesmo tempo, a forma como são difundidos os acontecimentos sobre o conflito.

«Quanto à autenticidade das notícias, contudo, há provavelmente mais omissões do que mentiras propriamente ditas», sublinha George Orwell que, impedido de se alistar por motivos de saúde, acaba por trabalhar na BBC, como correspondente.

Os diários demonstram também uma preocupação quase permanente sobre os reflexos dos movimentos políticos e dos interesses instalados, em Inglaterra e no mundo.

«Onde sinto que as pessoas como nós (referindo-se a um amigo) compreendem a situação melhor do que os chamados peritos não está na capacidade de prever acontecimentos específicos, mas sim na capacidade de compreender o tipo de mundo em que vivemos», diz Orwell em 1940 referindo que, «pelo menos», foi sem surpresa que viu o mundo mudar.

«Pelo menos, já sei desde cerca de 1931 que o futuro tem de ser catastrófico. Não consegui prever exatamente quais as guerras e as revoluções que vinham aí, mas nunca me surpreenderam quando se verificaram», escreve.

A este propósito refere que o pacto Molotov/Ribbentrop, entre Berlim e Moscovo, e que levaram os dois países a invadir a Polónia em 1939 não podia ser encarado como tática do regime soviético para travar o nazismo.

«O comunismo e o extremismo de esquerda na Europa Ocidental são agora, e de um modo geral, quase inteiramente uma forma de masturbação. As pessoas que na realidade não têm qualquer forma de poder sobre os acontecimentos consolam-se a si próprias, fingindo que, de um certo modo, estão a controlá-los. Do ponto de vista dos comunistas nada mais importa, desde que consigam convencer-se a si próprios de que a Rússia está por cima», escreve Orwell.

Para o escritor, o discurso soviético sobre a revolução não passava de uma mentira e de um exercício do poder pelo poder já que Moscovo acabava por anular mesmo os movimentos de esquerda na Europa.

«Uma revolução começa com uma vasta propagação das ideias de liberdade, igualdade, etc. Depois vem o crescimento de uma oligarquia, que está tão interessada em continuar a garantir os seus privilégios como qualquer outra classe governante. Esse tipo de oligarquia terá necessariamente de ser hostil às revoluções que se deem noutros países, e que, inevitavelmente irão voltar a acordar as ideias de liberdade e igualdade», diz Orwell desencantado com o comunismo desde os tempos do conflito espanhol e que retratou no livro «Homenagem à Catalunha».