Luís Arruda, administrador da Fundação Dionísio Pinheiro, disse hoje dar «atenção» às opiniões de especialistas que põem em causa a autenticidade das gravuras atribuídas a Rembrandt, mas gostaria que as tivessem analisado primeiro.

Reagindo a notícias publicadas hoje em alguns jornais, que questionam a autenticidade das gravuras de Águeda, Arruda elenca um conjunto de elementos que apontam no sentido de serem feitas a partir da matriz original.

«Algumas gravuras possuem o carimbo identificado e reconhecido da Biblioteca Nacional de Paris, que atesta terem-lhe pertencido e não é por existirem em Paris gravuras idênticas que as de Águeda não são autênticas. Uma gravura é isso mesmo. Da matriz original do autor podem existir vários exemplares. A questão é se estas são ou não feitas a partir dessa matriz», diz.

Numa reportagem sobre o tema na edição de hoje do Público, Maria José Goulão, professora de História de Arte na Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto que foi conservadora da Fundação Dionísio Pinheiro, considera que as peças «não são da mão de Rembrandt» e conclui que serão «reproduções fotomecânicas, obtidas através do processo fotolitográfico, ou da técnica da heliogravura».

O Público alude ainda a um artigo publicado em 2007 por Madalena Cardoso da Costa, que também foi conservadora da Fundação, onde conclui igualmente trata-se de meras reproduções, referindo um parecer emitido a partir da Biblioteca Nacional de Paris, em troca de correspondência.

Para o administrador da Fundação, o trabalho publicado em 2007 na revista «Munda», do Grupo de Arqueologia e Arte do Centro, por Madalena Cardoso da Costa, em que esta manifesta a convicção de se tratarem de meras reproduções, «é pouco esclarecedor» e explica porquê.

«Falta-lhe aparentemente o rigor necessário, ao elencar 350 gravuras na coleção do Museu desta Fundação, quando apenas temos 282, as mesmas que foram expostas em 1948. Se existem, onde estão as outras?», questiona.

A conclusão de Madalena Cardoso da Costa apoia-se na correspondência que trocou com Gisèle Lambert, diretora do Departamento de gravuras e fotografias da Biblioteca Nacional de Paris.

«Gisèle Lambert nunca viu as gravuras de Águeda. Limitou-se nessa correspondência a advertir que existem reproduções de originais da Biblioteca de Paris que foram fotografados e reproduzidos por negociantes», salienta Luís Arruda.

Além do «carimbo de Paris», o percurso é relativamente conhecido. Pertenceram ao Conde do Ameal, descrito como «um criterioso colecionador», que «reuniu no seu palácio, à rua da Sofia, um autêntico museu, constituído por inúmeras peças de incalculável valor» e cujo título lhe foi concedido por D. Carlos, monarca cuja sensibilidade artística é reconhecida.

Em 1921, já na República, as gravuras de Águeda foram adquiridas no «Leilão do Ameal» e foram apresentadas como «gravuras de Rembrandt» em 1948, durante o Estado Novo, figurando no catálogo da «Grande Exposição da Gravuras Antigas dos Famosos Mestres dos séculos XV, XVI, XVII e XVIII», organizada em Alcântara, pelo então Serviço Nacional de Informação, Cultura Popular e Turismo (SNI), comissariada por Luís Reis dos Santos.

Luís Arruda defende por isso que importa que os «especialistas estudem os próprios materiais das gravuras de Águeda, nomeadamente o papel e as tintas usadas», antes de serem conclusivos.

«Todos os contributos acerca do nosso espólio são importantes, mas a Fundação quer ter mais do que meras opiniões subjetivas, de pessoas que, algumas nunca viram o que está em Águeda», conclui.