O governo anunciou esta segunda-feira que vai promover uma avaliação sobre a autenticidade das peças existentes na Fundação Dionísio Pinheiro, em Águeda, parcialmente expostas como gravuras de Rembrandt.

Gravuras de Rembrandt em Águeda podem ser falsas?

Uma nota enviada à Lusa pela Secretaria de Estado da Cultura informa que «o secretário de Estado da Cultura solicitou à Direção-Geral do Património Cultural que promovesse uma avaliação sobre a autenticidade das obras em causa».

A Fundação Dionísio Pinheiro e Alice Cardoso Pinheiro, com sede em Águeda e cuja «tutela» cabe ao Conselho de Ministros, de acordo com um dos seus administradores, mantém 14 obras em exposição temporária como sendo gravuras de Rembrandt, apesar de a sua autenticidade ter sido posta em causa por alguns historiadores.

Luís Arruda, administrador da Fundação Dionísio Pinheiro, disse hoje dar «atenção» a essas opiniões, mas gostaria que os mesmos primeiro tivessem analisado as gravuras. «Algumas gravuras possuem o carimbo identificado e reconhecido da Biblioteca Nacional de Paris, que atesta terem-lhe pertencido e não é por existirem em Paris gravuras idênticas que as de Águeda não são autênticas. Uma gravura é isso mesmo. Da matriz original do autor podem existir vários exemplares. A questão é se estas são ou não feitas a partir dessa matriz», disse.

Numa reportagem sobre o tema na edição de hoje do Público, Maria José Goulão, professora de História de Arte na Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto que foi conservadora da Fundação Dionísio Pinheiro, considera que as peças «não são da mão de Rembrandt» e conclui que serão «reproduções fotomecânicas, obtidas através do processo fotolitográfico, ou da técnica da heliogravura».

O Público alude ainda a um artigo publicado em 2007 por Madalena Cardoso da Costa, que também foi conservadora da Fundação, onde conclui igualmente trata-se de meras reproduções, referindo um parecer emitido a partir da Biblioteca Nacional de Paris, em troca de correspondência.

Para o administrador da Fundação, o trabalho publicado em 2007 na revista «Munda», do Grupo de Arqueologia e Arte do Centro, por Madalena Cardoso da Costa, em que esta manifesta a convicção de se tratar de meras reproduções, «é pouco esclarecedor» e explica porquê.

A conclusão de Madalena Cardoso da Costa apoia-se na correspondência que trocou com Gisèle Lambert, diretora do Departamento de gravuras e fotografias da Biblioteca Nacional de Paris, mas «Gisèle Lambert nunca viu as gravuras de Águeda».

Além do «carimbo de Paris», o percurso é relativamente conhecido. Pertenceram ao Conde do Ameal, descrito como «um criterioso colecionador», que «reuniu no seu palácio, à rua da Sofia, um autêntico museu, constituído por inúmeras peças de incalculável valor» e cujo título lhe foi concedido por D. Carlos, monarca cuja sensibilidade artística é reconhecida.

Em 1921, já na República, as gravuras de Águeda foram adquiridas no «Leilão do Ameal» e foram apresentadas como «gravuras de Rembrandt» em 1948, durante o Estado Novo, figurando no catálogo da «Grande Exposição da Gravuras Antigas dos Famosos Mestres dos séculos XV, XVI, XVII e XVIII», organizada em Alcântara, pelo então Serviço Nacional de Informação, Cultura Popular e Turismo (SNI), comissariada por Luís Reis dos Santos.

Dionísio Pinheiro, um empresário natural de Águeda que «fez fortuna» e morreu sem descendentes, deixou em testamento, entre outros bens, a coleção de arte que de que as polémicas gravuras faziam parte, com a obrigação de ser feita uma fundação com o seu nome, onde as obras fossem expostas.