O militar da GNR que sobreviveu em 2016 a um disparo em Aguiar da Beira disse esta sexta-feira que recorda todos os dias os momentos em que sentiu “a vida em perigo” e admitiu que tem acompanhamento psiquiátrico e psicológico.

Não há dia nenhum que não pense nisso”, apontou, acrescentando que “não há sentimentos que expliquem” o que sentiu quando foi obrigado a colocar o seu colega morto na bagageira do veículo da GNR.

As declarações de António Ferreira foram feitas no tribunal da Guarda, onde Pedro Dias começou esta sexta-feira a ser julgado pela prática de três crimes de homicídio qualificado sob a forma consumada, três crimes de homicídio qualificado sob a forma tentada, três crimes de sequestro, crimes de roubo de automóveis, de armas da GNR e de quantias em dinheiro, bem como de detenção, uso e porte de armas proibidas.

Depois de ter passado cerca de duas horas da manhã desta sexta-feira a descrever o que aconteceu na noite de 11 de outubro doe 2016, em que viu o seu colega Carlos Caetano ter sido abatido e ter ainda sido atingido pelas costas, António Ferreira falou mais 45 minutos durante a tarde, desta feita para partilhar o trauma psicológico e as lesões físicas com que ficou.

O disparou que sofreu fez com que tivesse ficado internado “quatro dias” no Centro Hospitalar Tondela-Viseu, para além de ter ficado mais “dois meses e meio acamado em casa”.

Seguiu-se ainda um período com deslocações frequentes a consultas e para a realização de vários exames médicos, que só de agosto para cá passaram a ser “mais espaçadas”.

António Ferreira revelou que tem ainda alojada a bala na cervical, entre a C1 e a C2, e que “os médicos têm medo de mexer”, pois está a “um milímetro de provocar lesões permanentes”.

A par do acompanhamento às lesões físicas, que lhe provocam dores, especialmente na face, o militar da GNR está também a ser acompanhado mensalmente na Psiquiatria da Casa de Saúde de Viseu e de 15 em 15 dias por uma psicóloga da Câmara de Aguiar da Beira.

Depois do testemunho de António Ferreira, que Pedro Dias acompanhou por videoconferência, a partir de outra sala, o arguido decidiu manter o silêncio.

No final da sessão desta sexta-feira, o advogado do militar da GNR, Pedro Proença, disse aos jornalistas que os trabalhos “correram bem” e que estima que o julgamento seja “mais rápido do que se suponha”.

Sobre António Ferreira, destacou que passou a sofrer de uma incapacidade acentuada para tarefas mínimas da sua vida diária.

Tarefas tão simples como a sua higiene pessoal estão afetadas, para não dizer a dificuldade de locomoção, as dores persistentes e os problemas com o trauma do que viveu. Mesmo em relação ao seu futuro pessoal como GNR vê a sua vida condicionada”, apontou.

Quanto aos pedidos de indemnizações cíveis, Pedro Proença disse serem no valor de 70 mil euros para António Ferreira e de 250 mil euros para os familiares de Carlos Caetano, que faleceu em “circunstâncias traumáticas”.

A próxima sessão está agendada para as 09:30 de terça-feira, estando prevista a audição de seis testemunhas.