Perto de 20 pessoas foram obrigadas a percorrer cerca de 80 quilómetros, esta quinta-feira, para testemunharem num julgamento com origem em Alfândega da Fé e que a reorganização do mapa judiciário deslocou para a capital de distrito, Bragança.

A Sandra Barros valeu a boleia de outra testemunha porque o único autocarro para Bragança chegaria só depois das 10:00 e da hora marcada para o início do julgamento, as 09:30.

O julgamento em causa, de um agricultor de Alfândega da Fé acusado de tráfico de pessoas, é um dos primeiros a transitar para a nova comarca, em Bragança, que passou a centralizar todos os casos de processo crime punidos com penas superiores a cinco anos.

Para a audiência foram chamadas testemunhas de Alfândega da Fé e de Vila Flor, que distam cerca de 80 quilómetros da capital de distrito de não têm uma rede pública de transportes que dê resposta aos horários dos tribunais.

O único autocarro que serve esta zona do sul do distrito chega a Bragança depois das 10:00 e parte às 15:30, hora a que hoje ainda deve estar a ser ouvido o arguido, que é o primeiro a responder ao tribunal.

Já foi comunicado às testemunhas que não fica resolvido hoje, como disse à Lusa Luís Castilho, que terá de regressar a Bragança na data que o tribunal indicar.

Luís deu boleia a cinco pessoas de Alfândega da Fé que pouparam no transporte, mas têm de contabilizar as refeições e o tempo do dia ou dias de trabalho perdidos.

«Fica caro», afirmou à Lusa Helena Castilho que vai pagar do seu bolso a refeição «e a jeira se pedirem» às testemunhas arroladas pelo filho que está a ser julgado.

António Morgado deslocou-se de Vila Flor e deu boleia a mais duas testemunhas e defende que devia ser «o Ministério da Justiça a custear a deslocação e almoço».

«São encargos para as pessoas que se deslocam. Propícia é que as pessoas se recusem a ser testemunhas e prejudica a verdade», considerou, advogando que «antes da reorganização deviam ver se as pessoas têm condições».

Sandra Barros foi chamada como testemunha e apanhou boleia com António. De outra forma tinha de se deslocar de autocarro e nunca chegaria a tempo do início do julgamento.

«Eles exigem que as pessoas venham, mas não querem saber se a gente tem dinheiro», desabafou esta mãe de dois filhos que está empregada há um mês, teve de faltar ao emprego e não sabe quanto tempo ou quantos dias vai ter de passar em Bragança.