Homem de idade avançada, com pouca instrução, traído pelo cansaço. São três características a ter em conta para traçar o perfil da maioria das vítimas de acidentes com tratores agrícolas, uma realidade em que Portugal ocupa lugar de destaque.

Só nos últimos cinco anos, morreram 358 pessoas nesta situação. "Os acidentes com tratores em Portugal são, infelizmente, demasiado regulares. Há mais de uma vítima mortal por semana", afirma à TVI24 o coordenador técnico da Confederação Nacional das Cooperativas Agrícolas e do Crédito Agrícola de Portugal (Confagri).

Mais de 50% dos acidentes com vítimas mortais surge com operadores do sexo masculino, com uma idade superior a 65 anos, com baixo nível de qualificações e sinais de fadiga acentuados", acrescenta Augusto Ferreira.

Apesar de estar só na 12ª posição em termos de dimensão de superfície agrícola, Portugal é o terceiro país da União Europeia que regista mais mortes em acidentes com tratores, sendo apenas ultrapassado pela Grécia e pela Polónia. 

“Os acidentes com tratores assumem-se determinantemente como a principal causa de morte no trabalho agrícola”, sublinha o mesmo responsável.

A TVI24 contactou a Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária para obter dados atualizados do número de acidentes com tratores agrícolas, que remeteu mais informações para o Ministério da Administração Interna, que, por sua vez, não deu resposta até ao momento.

As causas

A maioria dos acidentes com tratores ocorre em propriedades agrícolas e são muitas vezes semelhantes: o veículo despista-se, capota e apanha o condutor, esmagando-o.

Entre as causas, Augusto Ferreira destaca o envelhecimento e a insuficiente formação dos condutores.

“Portugal tem os agricultores mais velhos da União Europeia, cuja média de idades passou dos 63 anos em 2009 para os 65 anos em 2016. Ao envelhecimento encontram-se ainda associados reduzidos conhecimentos sobre os riscos dos equipamentos e uma quase total ausência de formação.”

A antiguidade e a falta de manutenção dos veículos e a não utilização das estruturas de segurança são outros perigos a ter em conta.

“Aproximadamente 50% dos tratores têm mais de 20 anos. Ou seja, tratores para os quais ainda não existia a obrigatoriedade de possuírem estruturas de segurança anti capotamento", explica.

O responsável da Confagri sublinha ainda a insuficiente avaliação dos riscos relacionados com a inclinação do terreno ou a carga transportada.

“As características da atividade agrícola nacional são também elas um fator de risco acrescido, em particular pelas caraterísticas estruturais das explorações, que em grande parte do território são constituídas por parcelas com acentuado declive e uma reduzida dimensão", acrescenta.

Como alterar o cenário

De acordo com a Autoridade Nacional da Segurança Rodoviária, os acidentes com veículos agrícolas são os que apresentam a maior taxa de mortalidade.

É oito vezes superior à de acidentes com condutores de automóveis ligeiros ou pesados”, realça o coordenador técnico da Confagri.

Para atenuar este cenário, o especialista alerta para a necessidade de apoios à formação e também à substituição ou atualização dos veículos.

“Ultrapassar constrangimentos de muitas dezenas de anos não é fácil. No entanto, e no imediato, são necessárias políticas de sensibilização, acrescidas de políticas de apoio à formação dos operadores, que permitam designadamente a formação gratuita a todos os agricultores e em todas as regiões e políticas que permitam o apoio específico à substituição de tratores sem estruturas de segurança ou, em alternativa, à sua instalação quando possível.”

Augusto Ferreira defende ainda que é preciso “sangue novo”, com a atração de mais jovens para a agricultura e a "promoção da cessação da atividade de agricultores com idade avançada.”

O Governo introduziu recentemente algumas medidas para reduzir os níveis de sinistralidade com tratores e máquinas agrícolas, como a obrigatoriedade da inspeção aos tratores e da participação dos condutores em ações de formação.

"Com as recentes alterações ao Código da Estrada, a formação passou a ser obrigatória para os condutores de veículos agrícolas da categoria II (tratores agrícolas ou florestais, simples ou com equipamentos montados, bem como os tratores agrícolas ou florestais com reboque ou máquina rebocada) e da categoria III (tratores agrícolas ou florestais com ou sem reboque e as máquinas agrícolas ou florestais pesadas, com peso superior a 3,5 toneladas)", explicou o mesmo responsável da Confagri.

Em conjunto com a Autoridade para as Condições do Trabalho e as organizações agrícolas locais, a Confederação Nacional das Cooperativas Agrícolas realiza, há vários anos, ações de sensibilização para agricultores, como também promove ações de formação regulares de habilitação para a condução de veículos agrícolas.