Há 50 anos, as cheias provocadas por valores recordes de chuva causaram numa noite mais de 500 mortos na Grande Lisboa, a maior tragédia que há memória em Portugal e que contou com a mobilização de seis mil estudantes universitários.

Na noite do dia 25 para 26 de novembro choveu o que deveria ter chovido num ano. As ruas transformaram-se em rios, as casas inundaram-se, algumas desmoronaram outras foram arrastadas, os meios de transporte pararam e não havia comunicações, escrevia a imprensa na altura.

Lisboa, Olival Basto, Pontinha, Odivelas, Barcarena, Colares, Alverca, Alhandra, Alenquer e Queluz foram as regiões mais afetadas, mas foi na localidade de Quintas, no concelho de Vila Franca de Xira, que a tragédia teve uma dimensão mais devastadora com a morte de mais de um terço da sua população.

Em entrevista à agência Lusa, a propósito das cheias de 1967, Helena Roseta, deputada na Assembleia da República e presidente da Assembleia Municipal de Lisboa, eleita pelo PS, recordou como viveu a situação e mostrou o I Caderno de Reflexão, publicado com o jornal da Juventude Universitária Católica (JUC), depois das cheias e que, ao contrário de outras publicações, saiu para a rua sem passar pela censura.

“Lembro-me sobretudo do cheiro dos mortos, do caos que depois da chuva passada e à luz do sol ganhavam uma dimensão inacreditável. Na altura, eu tinha 19 anos e era estudante de arquitetura. Lembro-me de que chovia muito, mas à noite não temos consciência da dimensão da tragédia. Só percebemos que chove muito”, disse.

A arquiteta paisagista Helena Roseta lembrou que naquela altura o governo português liderado por António de Oliveira Salazar limitou a publicação de informação das consequências das cheias.

As notícias que chegavam de boca em boca e depois através das brigadas de estudantes universitários que se mobilizaram para auxiliar as pessoas davam conta de cada vez mais vítimas, número que era depois atenuado pelo regime.

“Havia censura. Não só se pretendia ocultar dados sobre os mortos, mas também sobre os movimentos estudantis que surgiram para ajudar. Não fiz parte das brigadas, mas fazia parte da JUC, que juntamente com as associações de estudantes colocariam no terreno estudantes para ajudar as vítimas”, disse.

No dia seguinte à intempérie, contou a então estudante Helena Roseta, quando as pessoas começaram a perceber a dimensão da tragédia, os estudantes mobilizaram-se.

Mais de seis mil estudantes mobilizaram-se em brigadas e distribuíram ajuda de acordo com a especialidade do curso em que estavam, de acordo com informação do Caderno, ao qual a Lusa teve acesso.

“Deste movimento estudantil faziam parte António Guterres, Marcelo Rebelo de Sousa, eu própria, o Pedro Coelho, um dos grandes dinamizadores do Instituto Superior Técnico e muitos outros. Eu não fiz parte da organização das brigadas, não estive nos bairros, mas fui chamada para ficar na retaguarda, para recolher informação, publicar, dar a conhecer a dimensão e o porquê da tragédia”, adiantou.

Helena Roseta explicou que as associações de estudantes juntaram-se à “única organização que não era proibida: a JUC, que estava mais próxima da igreja e não incomodava”.

O Caderno de Reflexão, assinado por Helena Roseta, então conhecida como Lenicha Salema, António Cavaco, do Instituto Superior Técnico, João Duarte Cunha, da JUC, e Pedro Roseta, diretor do jornal, foi distribuído após três meses das cheias.

“As nossas fontes de informação eram as brigadas (…). No Caderno de Reflexão quisemos mostrar o trabalho do movimento estudantil e dar a conhecer a opinião dos arquitetos Gonçalo Ribeiro Telles e Nuno Portas, que chamavam a atenção para o desordenamento do território”, disse.

“Queríamos perceber não a dimensão da tragédia, mas o porquê. (…) Nuno Portas e Ribeiro Telles foram vozes quase proféticas. As palavras deles, passados 50 anos, ainda são atuais. Fizeram uma denúncia dos aspetos físicos das cheias, sobre o desordenamento do território, sobre a questão da habitação, a carência da habitação”, disse

Na sua opinião, estes dois arquitetos foram precursores e pioneiros na denúncia do que estava por trás da tragédia.

“Depois disto, o jornal da JUC passou a ir à censura. Julgavam que era um jornal que não era incómodo e por isso não era sujeito a censura”, disse, acrescentando que mais do que uma mensagem, o Caderno de Reflexão pretendia ser um veículo de informação.

No Caderno, os alunos destacam a ação estudantil, a experiência das brigadas de estudantes, as medidas que foram tomadas pelo Governo na altura e é dada uma visão global do problema.

Falam das causas económicas e demográficas da época, salientando que o efeito do encarecimento constante dos custos do alojamento na cidade de Lisboa levaram as pessoas a viverem em aglomerados suburbanos.

No Caderno são dados pormenores sobre o trabalho no terreno (desde a vacinação às organizações de creches e informação junto das populações) e o montante angariado em dinheiro e serviços (de 40.694 escudos) pelos universitários.

“Este era o tipo de informação que os jornais não conseguiam fazer passar devido à censura”, disse Helena Roseta.