Uma criança que «voou» com o telhado da escola, outras soterradas em armários ou cobertas de vidros são algumas das imagens que, durante muito tempo, alunos e professores do Jardim Escola João de Deus, em Tomar, não conseguiram apagar, na sequência do tornado que atingiu aquela escola, a 7 de dezembro de 2010. O fenómeno deixou cicatrizes físicas e emocionais em dezenas de crianças, mas uma intervenção em saúde mental inédita, que decorreu no local, impediu que as perturbações evoluíssem para doença, noticia a Lusa.

Os pais começaram a identificar sinais como medo do vento e da chuva, enurese noturna e pedidos para dormir com a mãe ou com o pai.

Na escola, os tempos seguintes também foram de medo, principalmente em dias de vento, de tal forma que a direção pediu ajuda ao hospital local, sem capacidade para realizar uma intervenção a 136 crianças, familiares e professores.

Cinco anos depois, a diretora do jardim escola ainda se emociona ao falar do que aconteceu:

«A minha grande preocupação, desde o primeiro dia, foi a parte emocional das crianças e como esta ficaria afetada pelo tornado». «Que afetaria, eu nunca tive dúvida nenhuma»


Nos tempos seguintes ao tornado, e durante o resto daquele inverno, «bastavam mais nuvens no céu para as crianças ficarem mais inquietas», afirmou Alzira Peralta, que tratou de procurar ajuda logo após o ciclone.

«Localmente era muito difícil, não tinham meios, mas nunca baixei os braços e, de contacto em contacto, cheguei ao enfermeiro António Nabais, da Área de Pedopsiquiatria do Centro Hospitalar de Lisboa Central (CHLC) que, através de uma intervenção inédita, proporcionou uma progressiva tranquilidade às crianças». «As crianças foram encarando a situação por que passaram com mais tranquilidade e adquirindo a capacidade de ultrapassar o que viveram»


Alzira Peralta lembra que a chegada da equipa – quatro enfermeiros, uma vez por semana – era sempre uma festa. «O processo foi encerrado. A grande mais-valia desta intervenção foi resolver o assunto na cabecinha destas crianças», concluiu.

Os custos para deslocar 136 crianças, familiares e educadoras semanalmente, durante seis meses, e o impacto no absentismo laboral dos pais e no funcionamento do jardim-escola ameaçavam tornar a intervenção inviável, pelo que uma equipa coordenada pelo enfermeiro António Nabais apresentou uma alternativa: levar a intervenção ao contexto escolar.

A terapia

A iniciativa, inédita em Portugal, decorreu em 2011, ano em que quatro enfermeiros (dois especialistas em saúde mental e dois de cuidados gerais) da Área de Pedopsiquiatria do CHLC trabalharam uma vez por semana com estas crianças, mas também com pais e professores.

António Nabais disse à Lusa que, na avaliação realizada através de inquéritos e pela interpretação dos desenhos das crianças – com idades entre os três e os dez anos – foi possível averiguar que quase metade (41,7 por cento) apresentava possível perturbação mental.

Destas, a grande maioria já apresentava perturbação mental – nomeadamente ao nível do comportamento - antes do tornado, tendo com este aumentado em dez vezes a possibilidade do seu problema se agravar e evoluir para doença mental.

Os profissionais organizaram grupos terapêuticos, consoante a idade das crianças, com as quais dramatizaram histórias com o objetivo de verbalizar a situação vivida e ultrapassar o seu impacto.

Para os mais pequenos, entre os quatro e os seis anos, foi escolhida a história de «Os três porquinhos», envolvendo «a construção, a destruição e reconstrução de uma casa, numa alusão à escola que foi destruída pelo tornado e depois reconstruída», explicou António Nabais.

Aos que frequentavam o segundo, terceiro e quarto ciclo do ensino básico foi proposta a construção de uma história e a definição de personagens, que no final do ano foi apresentada como peça de teatro.

Segundo António Nabais, a intervenção permitiu que a maioria das crianças melhorasse o seu estado, sendo que as que não melhoraram ou até pioraram foram encaminhados para consultas de pedopsiquiatria.

Este projeto venceu, em 2014, o Prémio de Boas Práticas em Saúde.