Um bombeiro voluntário de Terras de Bouro acusado de ter tentado matar um vizinho com uma faca e um pau alegou esta segunda-feira, em tribunal, que atuou em defesa do pai, negando a utilização de qualquer arma branca.

O arguido disse que viu o seu pai a ser agredido pelo vizinho e que saiu em sua defesa, utilizando apenas um pau, sublinhando que nunca teve intenção de matar. Pai e filho estão acusados de homicídio qualificado, na forma tentada.

As declarações foram prestadas na repetição do julgamento, decretada pelo Tribunal da Relação de Guimarães, após recurso dos arguidos.

No primeiro julgamento, os arguidos tinham sido condenados a penas de sete anos de prisão, por acórdão datado de 29 de fevereiro de 2016.

A Relação, no entanto, mandou repetir o julgamento, apontando para uma “contradição insanável” entre a fundamentação e a decisão e para um “erro notório” na apreciação da prova.

De acordo com a acusação, os factos remontam a 6 de julho de 2013 e tiveram origem num conflito que a vítima e os alegados agressores mantinham por causa do regadio dos campos de cultivo.

No dia dos factos, a vítima estaria a apascentar o gado num local isolado, num baldio em Chamoim, Terras de Bouro, quando foi atacada pelos dois arguidos, que o terão agredido "de forma reiterada" com uma faca e um pau, atingindo-a na cabeça, no tórax, no abdómen e nos braços e pernas.

Acordaram tirar-lhe a vida”, refere a acusação.

A vítima caiu ao chão, “pela violência dos golpes e pelo sangue perdido”, mas os arguidos “continuaram” a agredi-la, até que perdeu os sentidos.

Nessa altura, empurraram a vítima “a pontapé” até uma ribanceira e projetaram-na para um silvado, “convencidos” de que ali morreria, e abandonaram o local.

A vítima foi encontrada “por circunstâncias fortuitas e imprevisíveis” pelo filho e por outro homem que ali se dirigiram para tratar de um negócio de lenha. Foi uma cadela que os “conduziu” até ao local onde o ofendido se encontrava “desfalecido”.

Consequência das agressões, a vítima teve de efetuar três cirurgias e esteve 391 dias de doença.

O arguido filho é bombeiro nos Voluntários de Terras de Bouro. Em julgamento, alegou que agiu para defender o pai das supostas agressões que a vítima lhe estaria a infligir.

No dia dos factos, à GNR, tinha dito que não participara nas agressões, alegando mesmo que na altura nem sequer se encontraria na aldeia. Esta segunda-feira, confessou que inventou “essa desculpa”.

Inventei tanta coisa”, referiu.

Disse ainda que no dia dos factos, e até pelo seu espírito de bombeiro, ainda regressou ao local onde a vítima tinha ficado, para ver se precisaria de ajuda, mas já não a encontrou.

O arguido pai optou por não prestar declarações. O julgamento prossegue a 12 de dezembro, com a audição do médico responsável pelo relatório médico-legal da vítima.

O objetivo é tentar esclarecer se as feridas que apresentava foram provocadas por paus ou por facas.

A vítima morreu em fevereiro de 2015, mas de morte natural, sem que se tivesse estabelecido qualquer relação com as agressões.