Desde o início do ano, 293 mil migrantes e refugiados tentaram chegar à Europa, através do Mediterrâneo, tendo já morrido 2.440 pessoas durante o percurso, segundo números hoje avançados pelo alto comissário das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR), António Guterres.

“Portugal e os Estados Europeus estão adormecidos perante esta situação que é tão grave”, disse à Lusa a presidente do CPR, Teresa Tito Morais, lembrando que esta “pressão migratória de proporções enormes” está a ser suportada por um pequeníssimo grupo de países, como a Grécia, que este ano já recebeu 181 mil pessoas, ou a Itália, onde já chegaram 108 mil pessoas.

Ressalvando o caso alemão – que agora prometeu acolher 800 mil pessoas – Teresa Tito Morais acusa os restantes países de “egoísmo” ao estarem a atrasar e a tentar esquivar-se de resolver este drama humanitário.

“Isto é grave e isto significa que os nossos dirigentes europeus serão certamente julgados pela História, por não terem atuado mais rapidamente e em concertação”, criticou, defendendo a necessidade de uma política europeia efetiva de acolhimento destes migrantes, na sua maioria provenientes de países em guerra.

A presidente do CRP critica ainda o caso português, onde a proximidade das eleições parecem estar a atrasar o processo: “Há a questão do 'timing' em Portugal, que está a atravessar um período eleitoral e não quer avançar muito. Está a ver o que os outros estão a fazer, mas esta é uma situação que nos revolta”, criticou, questionando como é possível esperar “quando há tantas vidas humanas em sofrimento”, tantas histórias de crianças, mulheres e homens em situação desesperada.

Portugal comprometeu-se em receber cerca de 1.500 refugiados nos próximos dois anos o que, para Teresa Tito Morais, é um “número muito ridículo”, tendo em conta que todos os dias chegam cerca de 2.500 pessoas só à Grécia.

No entanto, a presidente da CPR reconhece que, na situação atual, “se vierem 1400 já é bom". "É um sinal que se pode estruturar um programa de acolhimento com mais possibilidades”.

Numa altura em que a Europa atravessa uma crise financeira, os refugiados representam um peso económico que parece difícil de suportar e, por isso, “os países estão à espera de que a Comissão Europeia abra os cordões à bolsa para depois cumprirem as suas missões”.

Para quem lida diariamente com os dramas dos refugiados, é difícil aceitar esta espera e fica a sensação de se estarem a perder “todos os valores que fundaram a Europa". "Os valores da defesa dos direitos humanos e da solidariedade estão a ficar para segundo, terceiro ou quarto plano ou já não existem mesmo”, lamentou a presidente do CPR, em declarações à Lusa.

Para a responsável, “Portugal e os países europeus não estão à altura de responder de maneira solidária”.

O alto comissário das Nações Unidas para os Refugiados, António Guterres, e o ministro francês do Interior, Bernard Cazeneuve, também apelaram hoje à criação urgente de centros de acolhimento.