Uma especialista em medicina legal revelou esta quinta-feira que o olhar mais atento de um médico salvou a vida a um bebé quando desconfiou da marca de um beliscão que, afinal, era um dos vários sinais dos maus-tratos que a criança sofria.

O exemplo apresentado por Teresa Magalhães, do Instituto Nacional de Medicina Legal (INML), durante o II Congresso Nacional de Ortopedia Infantil, que decorre até sexta-feira, em Lisboa, visou reforçar a importância dos profissionais de saúde na deteção de maus-tratos infantis.

«Esse médico, porque suspeitou das equimoses provocadas por um beliscão - que o pai atribuiu a uma queda -, foi investigar e descobriu que o bebé tinha ainda várias fraturas nas costelas e marcas oftalmológicas, salvando-lhe a vida», afirmou a professora na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto.

Durante a sua intervenção, Teresa Magalhães apresentou várias imagens de maus tratos «fáceis de detetar», como os provocados por banhos em água a ferver, violações, queimaduras de cigarro, com secadores de cabelo, cortes, entre outros, mas alertou também para os «mais difíceis de detetar».

Sobre esses, Teresa Magalhães defendeu que o profissional de saúde, «na dúvida, deve sinalizar» aos organismos respetivos, como as comissões de proteção de menores.

O objetivo, disse, é salvar a vida destas crianças, que podem não ter uma outra oportunidade.

«Já fiz autópsias a crianças com sinais mais ou menos óbvios de violência e nós não queremos de todo fazer autópsias às crianças», afirmou.

Teresa Magalhães sublinhou que o empenho dos profissionais de saúde ¿ tal como os educadores na idade escolar ¿ é determinante para a a resolução destes casos e considerou que o envolvimento destes é hoje muito mais concreto, com resultados visíveis.

A especialista minimizou o papel dos números, pois acredita que «ainda não estão criados os instrumentos para conhecer uma realidade que, pela sua natureza, é encoberta».

«Os números são importantes, mas não chegam. Bastava haver um caso», disse.

A propósito da crise económica e dos seus efeitos nas famílias, com repercussões no bem-estar das crianças, Teresa Magalhães disse não sentir ainda um aumento significativo de casos de maus tratos, embora assuma que esta situação é «um dos muitos fatores de risco».

Os vários profissionais de saúde que estão em Lisboa a participar neste congresso nacional têm debatido a forma como os maus tratos chegam aos serviços de saúde, com destaque para a área ortopédica, defendendo todos eles a importância de uma resposta multidisciplinar para o problema.

Cassiano Neves, presidente da Federação Europeia das Sociedades de Ortopedia e Traumatologia disse que os profissionais de saúde, perante uma suspeita de maus tratos, devem atuar.

«Ter medo deste confronto [com os progenitores ou quem traz a criança ao serviço de saúde] não é razão para metermos o saco na cabeça», disse.

O especialista em ortopedia infantil deixou, contudo, um aviso: «Não há nada pior do que acusar uma família sem ter um estudo completo da criança. Na dúvida, é melhor internar a criança até ter um diagnóstico».

A este propósito, lembrou que existem doenças ¿ como a osteogenesis impefecta, que consiste numa muito acentuada fragilidade dos ossos ¿ que podem assemelhar-se a marcas de maus tratos.

Em Portugal existem 70 casos notificados desta doença e, segundo Cassiano Neves, já existiram situações que aparentavam maus tratos físicos, mas que os profissionais concluiram tratar-se da patologia.

Por isso, sintetizou, é necessário que as dúvidas sobre maus tratos sejam suportados por «uma boa história clínica», a qual também tem de passar por uma análise à relação dos pais com a criança.