Há quase 75 anos que a terceira acolhe a Base das Lajes e forças militares norte-americanas e há quase 75 anos que ela sofre poluições e contaminações. Sorte normal de quem tem grandes bases militares. Pode-se dizer, e com razão, mas o normal paga-se. E caro.

Dos 41 locais que estão, ou estiveram, contaminados com hidrocarbonetos, metais pesados e outras substâncias perigosas, sete apresentaram, a dado ponto, riscos de cancro acima do aceitável.

Um estudo científico que está a ser realizado na ilha tenta agora esclarecer as suspeitas de que poderá haver uma prevalência acima do normal de certos tipos de cancro na zona à volta da base.

Basta escavar um pouco

Se, na ilha Terceira, à superfície, tudo grita natureza em estado puro, ao escavar-se um pouco, já não é bem assim (veja as imagens, no início da reportagem em vídeo).

Quando estávamos a fazer a demolição dos alicerces, percebemos que havia escorrimento lateral de combustível”, diz à TVI João Ormonde, ex-presidente da Comissão de Trabalhadores da Base das Lajes. 

Quando chovia ou quando eles próprios tentavam limpar os tanques, a casa quando ia por aí abaixo, a gente via o derrame de combustível”, corrobora Susana Bettencourt, residente da Praia da Vitória

O professor de Hidrogeologia da Universidade dos Açores Francisco Cota Rodrigues, diz que “isso acontece  com muita frequência nas bombas de gasolina, que têm tanques de armazenamento”.

Essa é uma situação muito frequente e muito comum. Era uma situação desse género, nada alarmante”

Já Félix Rodrigues, professor de Ciências do Ambiente da Universidade dos Açores fala numa “enorme infiltração”.

Ao longo dos anos houve perda de hidrocarbonetos, ou seja, petróleo, que se foi infiltrando no solo, resultado da quebra de pipelines, que faz a ligação dos tanques lá de baixo com os que se encontram cá em cima. Isto levou a que haja uma zona de enorme infiltração, em grandes quantidades, de hidrocarbonetos.

Outras causas de contaminação

As fugas de combustível são a causa mais importante de contaminação, mas há mais: as forças norte-americanos puseram lamas tóxicas, amianto e outros produtos perigosos no solo.

Um relatório confidencial do Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC) feito para o ministério da Defesa no final de 2016, a que a TVI teve acesso, explica a dimensão do problema.

O documento, que sintetiza dezenas de estudos encomendados pelas forças armadas dos estados unidos nos últimos 36 anos, identifica os tais 41 locais da ilha em que os solos estão contaminados, ou que se suspeita que já tenham estado.

Em sete desses locais, os norte-americanos reconhecem então que o risco de cancro para militares e civis que ali trabalhassem à data da investigação era superior ao aceitável.

Cancros, leucemias, problemas cardíacos

O professor Norberto Messias, da Escola Superior de Saúde da Universidade dos Açores, percebeu a certa altura que algo de estranho se estava a passar nas freguesias mais próximas da base.

Por isso, iniciou um estudo, em colaboração com a Universidade de Boston, nos Estados Unidos, sobre a saúde dos trabalhadores portugueses e do resto da população da zona.

Começámos a constatar, dos dados já disponíveis, que havia situações de doença na área envolvente da base, com maior incidência em relação ao resto dos Açores, nomeadamente na área dos cancros e das leucemias e, também, dados não relacionados com cancro, mas com atendimento de situações de urgência cardíaca. Quando vamos à bibliografia vamos encontrar muitas destas situações com a presença de metais pesados".

Alguns dos locais apontados como tendo um risco oncológico acima do aceitável estão agora abandonados, mas o mesmo não acontece com o parque de tanques de combustível conhecido como South Tank Farm, ou a zona da entrada principal da base.

Isso mesmo é explicitado num estudo de 2006, que aponta um risco ligeiramente superior ao aceitável para a área que os americanos designam como Main Gate.

Tudo encharcado de combustível

Orlando Lima, um antigo funcionário da base que trabalhava para os americanos na área ambiental, mostrou à TVI parte do que testemunhou ao longo de muitos anos nessa zona, e mais além:

“Nós, se olharmos para Norte, podemos ver desde a antiga estação de abastecimento dos militares norte-americanos. Depois, encontramos a central. A partir da central, vamos ter um pipeline que verteu [combustível], durante imensos anos (…)  O combustível vertia porque havia dinheiro, não havia limite no dinheiro para combustível, mas não havia dinheiro para obra”.

Tudo isto fez com que o solo em muitos locais em torno da base ficasse encharcado de combustível. Bastava abrir um buraco pouco profundo para que ele logo surgisse, como atesta o ex-funcionário da Base das Lajes, Francisco Orlando Fernandes.

Começaram a abrir uma cova para fazer o alicerce e, aí a metro e meio, começou a aparecer gasóleo e foram abrindo, e foram abrindo, limpavam o gasóleo, no outro dia a cova tinha gasóleo, e no outro dia, levou para aí uma semana e tal ou duas, a acabar por fazer a obra e tapar com cimento”.

Água da praia pode estar contaminada?

Perante isto, a dúvida surge com rapidez. Não estará a água usada no concelho da Praia da Vitória também contaminada? As autoridades locais e regionais garantem que não e há vários estudos do LNEC que o provam.

O presidente do Governo regional dos Açores, Vasco Cordeiro, assume que “os dados de todos esses estudos, ao mesmo tempo que indiciam que há locais onde é preciso intervir, há questões que é preciso acautelar”, mas também diz que “demonstram de forma muito clara que não há uma situação em que exista um risco efetivo, ao contrário de algumas notícias recentes, o risco efetivo para a saúde pública”.

O presidente da câmara municipal da Praia da Vitória, Tibério Dinis, também indicou que foram feitas análises extraordinárias, por recomendação do LNEC, e concluiu-se que “até ao momento, a qualidade da água, é segura”.

Todavia, o professor Félix Rodrigues, especialista em ambiente da Universidade dos Açores, alerta que há indícios de que o abastecimento público pode ficar comprometido.

No caso da praia da Vitória há alguns níveis elevados que não estão contemplados na legislação portuguesa, como tal não se pode garantir que esta água tem condições de proteger a saúde pública”

A câmara municipal da Praia da Vitória reconhece que o risco de contaminação da sua água é real e, por isso, garante que já tem um plano B para abastecer o concelho em segurança no futuro.

No passado, fica um legado ambiental e de saúde cujas dimensões totais ainda estão por conhecer.