As obras de recuperação das infraestruturas afetadas pelo temporal de 20 de fevereiro de 2010, que estão a ser executadas na Ribeira Brava, Madeira, revelaram o que se admite ser um silo para cereais, datado do século XV.

As obras em curso na canalização do leito da ribeira colocaram a descoberto uma enorme pedra que, segundo os técnicos, trata-se de «um silo, mais conhecido por matamorra, que servia para guardar cereais», disse à agência Lusa Filipe Bettencourt, historiador da Direção Regional dos Assuntos Culturais (DRAC) da Madeira.

«Lapas (pedra escavada na rocha para guardar produtos) há muitas, mas um silo deste tipo é novidade», esclareceu.

Daniel Sousa, arqueólogo da DRAC explicou que no trabalho de levantamento da estrutura foram «encontrados grãos» - não sabendo, no entanto, se se trata de trigo -, o que pressupõe que a «última camada de terreno pode indicar uma datação do início do povoamento da ilha, do século XV».

O arqueólogo explicou que, quando se depararam com aquele achado, foram mandadas parar as máquinas envolvidas nos trabalhos.

«Demos conta de que existiria toda a estrutura que está escavada na rocha, com sulcos a negativo, que vemos que são marcas de aluvião (picareta) aquando da construção desta estrutura», explicou.

A análise por carbono 14 deverá ser feita mais tarde a «um fragmento de um osso», entretanto encontrado, e que poderá datar com mais exatidão o achado.

A DRAC está a proceder ao levantamento topográfico e fotográfico para elaborar um modelo a três dimensões.

Os especialistas admitem que, inicialmente, o silo era usado para guardar cereais - neste caso grão -, tendo sido depois abandonado «devido, eventualmente, a estar no leito da ribeira», sendo posteriormente aproveitado para guardar «instrumentos agrícolas».

Daniel Figueiroa, Diretor Regional de Infraestruturas e Equipamentos referiu que a obra de canalização da ribeira da Serra de Água sempre esteve condicionada por causa do achado.

«Os arqueólogos estão há muito tempo a trabalhar e a investigar essa pedra e a obra tem-se desenrolado à volta dessa pedra. Os muros estão a ser feitos a montante e a jusante da pedra», explicou.

O diretor regional adiantou que a pedra está no leito da ribeira, não podendo lá continuar.

«Normalmente, nestas situações, a DRAC faz o levantamento fotográfico e topográfico do que encontrou e nós vamos ter de remover a pedra», disse.

Daniel Figueiroa assegurou que a obra não sofreu nenhum atraso por causa deste achado.

«Os trabalhos estão a correr a bom ritmo e, aliás, até estão um pouco adiantados em relação ao prazo, apesar daquela zona estar condicionada», referiu.