Já é Inverno. Mas alguém reparou? Bem longe da neve e do frio, este Natal foi primaveril em Portugal e não só. Temperaturas a rondar os 15º, nalguns casos quase, quase a roçar os 20º. De repente, também se viveram momentos de quase tempestade, mas frio, esse, nada por aí além. E, pelo mundo, o El Niño a deixar fortes estragos. É assim mesmo: do oito ao oitenta as alterações climáticas estão a fazer o seu caminho. Portugal está a ficar igualmente marcado por essas pegadas. Estará a tornar-se num país tropical?

O mês de novembro já foi o mais quente dos últimos 34 anos em Portugal. Registou-se até uma onda de calor em algumas zonas. Dezembro ainda não acabou, mas não é difícil arriscar que o balanço não será muito diferente.

Já não há sombra de dúvidas, à escala global: 2015 foi o ano mais quente da história registada do planeta. 2014 também tinha sido. Este ano, os oceanos atingiram temperaturas recorde. Este ano, Portugal atravessou a segunda pior seca em 70 anos.
 

África vizinha traz o calor


Como? Porquê? O calor do Norte de África pode ditar o clima em Portugal. O que acontece, por exemplo, em Cabo Verde, pode ter impactos na costa dos Estados Unidos e até de Portugal. É em África que compreendemos porque é que o hemisfério sul será o mais castigado pelas alterações climáticas. 
  
Recuemos ao outono de 2014 e às cheias relâmpago em Lisboa. Os erros urbanísticos e a geografia da cidade ajudam a explicar, mas não chegam para perceber a causa do fenómeno. 
  
Esses episódios meteorológicos marcam o início de um processo mais vasto e aparentemente contraditório, hoje só percetível a milhares de quilómetros na aridez do Norte de África. É aí que hoje já se tem um vislumbre do futuro climático de Portugal. 
 

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Na realidade, visitar Marrocos é como entrar numa máquina do tempo. É como olhar para algumas regiões portuguesas no final do século. Apesar da aparente contradição, Portugal está num processo de desertificação. Chove muito em pouco tempo, mas na média anual chove menos de ano para ano. 
    
Neste processo, África ficará ainda mais à mercê da pobreza e da seca. Mas nenhum país ou região escapa à teia de consequências. E o que começa a milhares de quilómetros pode acabar à porta de casa. 
  
Tempestades sem precedentes, ondas gigantes, ventos devastadores, as praias portuguesas tornam-se cada vez mais locais de alto risco. A areia desaparece, a fúria das águas tudo arrasta, fenómenos cada vez mais à porta de muitos portugueses, ano após ano.
 

A força do El Niño


E em muitas outras portas, por esse mundo fora. O fenómeno “El Niño” está a assolar várias regiões do globo desde antes do Natal, com tempestades devastadoras, tornados e incêndios florestais.

Efeitos do el Niño em Asuncion, no Paraguai (Fonte: Reuters)


As cheias obrigaram a retirar milhares de pessoas, pelo menos cerca de 160.000, na América do Sul. Os países mais afetados foram a Argentina, o Brasil (com 40 cidades afetadas), o Paraguai e o Uruguai. Há dezenas de mortos a contabilizar. A chuva intensa provocada pelo El Niño levou, inclusive, três rios grandes da América do Sul a transbordarem.

Na Europa, o norte de Inglaterra foi fustigado por inundações, das piores de que há memória. As autoridades tiveram de emitir duas dúzias de alertas de perigo em apenas um dia e milhares de pessoas ficaram sem eletricidade.

Cheias no Reino Unido


Em Espanha, há uma série de incêndios a assolar o país há uma semana, o que até já provocou um acidente com um helicóptero que estava num dos teatros de operações. O aparelho caiu e o piloto, o único ocupante, acabou por morrer.

Incêndio em Espanha


Na outra ponta do globo, na Austrália, o mesmo problema. Os incêndios florestais devastaram milhares de hectares de terras vulneráveis ​​pelo clima excecionalmente seco no sul do estado de Victoria. Um dos incêndios consumiu pelo menos 116 casas no Natal e deverão continuar nas próximas semanas.
 
Os cientistas antecipavam em setembro que o fenómeno El Niño iria ser particularmente devastador neste inverno que acabou de começar e que o aquecimento global está a atingir o pico. 
 
O El Niño não é, assim, apenas uma tempestade isolada. Tem efeitos climatéricos a ter em conta, podendo resultar em secas e inundações, provocando o aumento da temperatura global. Logo, é fazer um mais um: o aquecimento global também é afetado. Podemos chamar-lhe caos climatérico, com um efeito em cadeia. Já estamos a senti-lo.