Isabel Lourenço é ativista dos direitos humanos, “ligada à causa saharaui há muitos anos”. Acompanhou a história de Tekbar Haddi desde que esta mãe perdeu o filho, em fevereiro, às mãos de colonos marroquinos. A história de Mohamed Lamin Haidala tem corrido mundo e chegou agora às portas do Parlamento português. Isabel Lourenço e Helena Brandão iniciaram, esta quarta-feira, pelas 15:00, uma greve de fome de 24 horas para chamar a atenção para o caso e para a causa saharaui.
 

“Tekbar Haddi é só um exemplo. Como ela, há muitas mães em sofrimento. A causa de Tekbar Haddi é a causa saharaui. É uma causa escondida. Nunca está na agenda do dia”, sublinha Isabel Loureço, em declarações à TVI.

 
O movimento #JusticiaParaHaidala ultrapassa assim, pela primeira vez, as fronteiras de Espanha. Isabel e Helena são as duas primeiras ativistas a solidarizarem-se com a mãe de Mohamed Haidala, em forma de greve de fome, fora de Espanha. Mas a iniciativa “Greve de Fome em Cadeia” deverá replicar-se noutros países. É apoiada por mais de 400 organizações e conta já com a adesão de deputados, atores, atletas, investigadores e sindicalistas.
 

A história de Tekbar Haddi e do filho Mohamed

 
Tekbar Haddi iniciou uma greve de fome a 15 de maio e prolongou-a por 36 dias. Apesar de reiterar que estava disposta a morrer se não conseguisse recuperar os restos mortais do filho Mohamed, foi obrigada a interromper o protesto porque os seus órgãos vitais começavam a ficar severamente afetados.
 
Tekbar reivindica que o Governo marroquino lhe devolva o corpo do filho, morto às mãos de colonos no Sahara Ocidental, para que possa velá-lo e enterra-lo condignamente. Quer também uma autópsia e que os acontecimentos que conduziram à morte de Mohamed, de apenas 21 anos, sejam investigados.


 
Tekbar Haddi conta a sua história

Mohamed Lamin Haidala foi atacado a 31 de janeiro por colonos marroquinos, em El Aiun, capital do Sahara Ocidental. Sofreu vários ferimentos, incluindo facadas no pescoço. Acabou detido pelas autoridades marroquinas e o auxílio médico que lhe foi prestado foi, no mínimo, deficiente: foi cosido no pescoço por um enfermeiro, sem anestesia e sem desinfeção, e as restantes feridas e lesões foram ignoradas. Passou dois dias deitado no chão da esquadra, sem cobertores.
 
A 2 de fevereiro, Mohamed foi levado para o hospital, mas acabou por morrer seis dias depois. A família não recebeu qualquer documento sobre as causas da morte do jovem e Tekbar assegura que as autoridades marroquinas lhe ofereceram 90 mil euros para manter o silêncio e não reclamar o corpo do filho.
 
A proposta foi recusada e silêncio não faz parte do vocabulário de Tekbar. Ainda em greve de fome, a 20 de maio, a mulher foi recebida por um grupo de eurodeputados em Estrasburgo e, mais recentemente, a 25 de junho, esteve diante do Conselho dos Direitos Humanos das Nações Unidas, em Genebra, a contar a história.
 

Deputados portugueses juntam-se à causa

 
As ativistas portuguesas Helena Brandão e Isabel Lourenço procuraram alertar as autoridades políticas portuguesas para o caso de Tekbar e para a causa saharaui.
 

“Fizemos um apelo aos deputados e ao Governo para que seja feita pressão junto do Governo marroquino, para que seja desbloqueada esta situação”, contou Isabel Lourenço à TVI.

 
As ativistas Helena Brandão e Isabel Lourenço (ao centro) com deputados do Bloco de Esquerda

Esta tarde, junto à Assembleia da República, onde iniciaram, às 15:00, o protesto, já receberam o apoio dos deputados Helena Pinto e José Soeiro, do Bloco de Esquerda, e Pedro Delgado Alves, do Partido Socialista. O partido Os Verdes também já enviou uma representante e deixou a promessa da visita dos seus deputados.