Praticamente metade dos médicos em Portugal tem a mesma opinião: os doentes faltam mais às consultas por causa dos custos com taxas moderadoras e transportes. É o que conclui um inquérito realizado em 2013, segundo o bastonário da Ordem dos Médicos.

Além das faltas a consultas, mais de 60% dos médicos questionados «deparam-se com o abandono frequente de terapêuticas no Serviço Nacional de Saúde (SNS)» devido «à incapacidade financeira invocada pelos doentes», sublinha José Manuel Silva, em Coimbra, citado pela Lusa.

O inquérito, que resultou de uma parceria entre o Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa (ISCTE) e a Ordem dos Médicos (OM), revela também que «um terço dos médicos deixam de prescrever medicamentos com frequência no SNS devido à incapacidade financeira invocada pelos doentes».

Quanto à qualidade dos serviços prestados no Serviço Nacional de Saúde, 65% dos médicos «afirmam que nas respetivas instituições existem faltas recorrentes de material para o exercício da profissão», cerca de 60% dos profissionais consideram que a qualidade do SNS foi afetada pelo «menor acesso a atividades de formação» e 80% afirmam ter «menos tempo para orientação de internos».

Mais ainda: 80% dos médicos inquiridos «considera que os cortes já aplicados no financiamento do SNS» comprometeram «a qualidade e acessibilidade dos cuidados», salientou bastonário, para quem «não vale a pena discutir a sustentabilidade do Serviço Nacional de Saúde, quando não há sustentabilidade do país».

«Temos a classe política menos bem preparada e menos honesta da Europa», criticou, considerando que é necessário mudar essa classe para que «o país e o SNS tenham futuro».

O bastonário falava numa cerimónia de comemoração dos 35 anos do SNS em Coimbra, dinamizada pela Secção Regional do Centro da Ordem dos Médicos, em que se procedeu à rega da «Oliveira do Serviço Nacional de Saúde».

Os dados revelados por José Manuel Silva referem-se a um projeto de investigação coordenado por Tiago Correia, do ISCTE, e pelo bastonário, em que foi enviado um questionário a todos os médicos inscritos na Ordem, tendo respondido 3448 médicos. Os resultados apresentados reportam-se apenas aos 1631 inquéritos «já validados».

Na cerimónia de comemoração dos 35 anos do SNS estiveram também presentes o antigo ministro socialista, António Arnaut, o presidente da secção regional, Carlos Cortes, o presidente da Câmara de Coimbra, Manuel Machado, a presidente da Liga dos Amigos dos Hospitais da Universidade de Coimbra, Isabel Garcia e o reitor da Universidade de Coimbra, João Gabriel Silva, entre outros.