Sónia Grilo é um exemplo raro de vítima de violência doméstica, alguém que conseguiu ultrapassar o drama, refazer a própria vida e, ao mesmo tempo, reconciliar-se com o passado. Sónia Grilo deu pela primeira vez o seu testemunho em televisão, esta quinta-feira, na 21ª Hora, na TVI24. Um testemunho diferente do habitual e um exemplo da importância das casas de abrigo da Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV).

Sem entrar em detalhes sobre si mesma e sobre a sua vida, mas com um sorriso e uma serenidade que saltou à vista, Sónia Grilo contou como é que mudou o fim à história que a maioria dos portugueses está habituado a ouvir em situações de violência doméstica e conjugal. Mãe de uma filha, Margarida, cuja idade não mencionou, Sónia revelou que “refez tudo” na vida depois de sair do círculo vicioso da violência doméstica e que hoje mantém até uma relação de amizade com o pai da filha, o agressor. A mulher explicou que se tratou de um processo de maturação que passou por dois vértices: o da vítima e o do agressor.

“Às vezes é importante entender que a violência é um crime, sim… mas existe ali uma base, que é um pedido de ajuda mútuo. Porque de um lado existe quem quer gritar e não quer perder aquela mulher, porque todos os medos, todas as coisas estão lá. As inseguranças, o sentimento de posse. E depois existe o outro lado que é ‘não me prendas por favor, eu estou aqui, não é preciso existir esta prisão'”, afirmou.

O que Sónia Grilo experienciou é que, muitas vezes, as pessoas, o casal, até está a dizer as mesmas coisas, a falar a mesma língua, mas em níveis completamente distintos. Como se comunicassem em comprimentos de onda distintos, em que um emite numa frequência e o outro responde noutra.

Casa de abrigo, o primeiro passo para sair da violência

Sónia Grilo contou que passar por uma casa de abrigo da APAV foi um passo importante para se libertar da violência. A APAV reforçou-a para a tomada de decisão e capacitou-a para a escolha que ela queria fazer.

“Eu tinha que tomar uma decisão e a decisão tinha que ser tomada logo ali, naquele exato momento. Ou era eu ou eram muitas outras coisas. E então eu decidi que queria ter um futuro. E queria ter um futuro para a minha filha também. Eu queria fazer algo diferente, não só por mim, mas também para o outro lado. E então pedi ajuda a um amigo e ele só me disse: tens este número, ou ligas tu, ou ligo eu. É melhor que ligues tu. E eu liguei. Um dia depois estava a ser ouvida e mais dois dias depois disseram-me é agora, está na hora. E então eu tinha que decidir ali. Então teve que ser tudo muito rápido porque tinha casa, tinha tudo, tinha as minhas coisas todas. E o que é que é mais importante para mim, agora? É o material todo que está aqui à minha volta ou a minha dignidade, a minha vida, uma construção? Foi uma decisão fácil porque eu queria viver. E então saí. Saí com a minha filha”, recordou.

O psicólogo Daniel Cotrim, da APAV, que participou da mesma entrevista na “21ª Hora”, explicou que as casas de abrigo devem ser sempre vistas e entendidas como o fim último naquilo que é a proteção das vítimas de violência doméstica.

“Estamos a falar de um espaço que é secreto, de um espaço onde as mulheres sentem que estão livres da violência, mas na verdade não vivem livres porque cortaram com muitas coisas para trás. Mas as casas de abrigo são o primeiro passo para a sua saída da violência, é a reaprendizagem de competências, é o empoderamento das mulheres tanto individual, como coletivamente”, realçou.

Uma mensagem para os agressores

Sónia Grilo contou que, desde que ultrapassou e se reconciliou com o passado, tem uma vida feliz: conquistou um círculo novo de amigos, embora mantenha também os antigos e, apoiada pela APAV, tem hoje um trabalho de que gosta.

A quem vive em silêncio o problema da violência doméstica e a agressores, que eventualmente a estivessem a ouvir, Sónia Grilo deixou uma mensagem.

“Eu continuo a acreditar na bondade das pessoas porque foi-me dada a alcunha de 'missionária' e eu continuo a fazer o mesmo papel. Eu acredito que eles podem mudar, que não é necessário agressão porque a pessoa quando tem que estar ao lado, ela está. Incondicionalmente, sem ser preciso: ‘tu és minha ou tu és meu, tu não podes sair daqui’. Não. Quando há amor está lá, não é preciso pressionar”, defendeu.

“E então a elas e a eles que se sentem aprisionados nessa situação é importante gritar o basta, aquele: ‘chega!’ Não é assim. E a eles mostrar-lhes que estão em segurança porque (…), no fundo, o agressor não é assim tão agressor porque ele está a pedir ajuda, só que é uma forma (errada) de ele pedir ajuda. Mas é bom que eles entendam que existe ajuda para essas situações”.

Sónia Grilo realçou que o agressor também sofre.

“Isto é o meu ver. Porque eu sei que o pai da minha filha sofreu. Sofreu bastante e hoje orgulho-me por ele ter dado a volta, por ter refeito a vida dele, por ter uma família fantástica, uma mulher linda que o apoia e que cuida da minha filha como se fosse a filha mais velha dela. Eu a ele tenho que lhe dar os parabéns pela força interior que ele teve: ‘okay, vamos fazer mudança todos’. E eu aqui quero falar por ele também, já que ele não tem essa hipótese. É possível, não é preciso agredir. Aprende-se, sim. Da pior forma, também. Mas existe uma solução que é: não há violência, não há gritos. O que é para estar, está. O que tem que sair, sai. Mas que seja assim: de uma forma muito subtil, muito tranquila”, concluiu.

Finais felizes não são assim tão raros

Poderíamos pensar que é pouco comum que o ciclo de terror e de medo da violência doméstica não acabe em tragédia, mas o psicólogo Daniel Cotrim revela que os finais felizes não são assim tão raros.

“Acontece muitas vezes e, para nós, que trabalhamos nestas matérias, temos muitos motivos para ficarmos muito felizes”, afirmou o psicólogo na entrevista conjunta na “21ª Hora”.

“Aquilo que nós estamos habituados a ouvir é exatamente apenas uma parte da história, aquela parte da história que é mais grave de todas. Que é dura, que é violenta, que é marcada pelo controlo, pelo poder, pela violência física, pela violência psicológica. Mas quando as pessoas, quando as mulheres e os homens que sofrem violência doméstica recebem ajuda e são verdadeiramente apoiados e o sistema todo colabora” é possível dar um final diferente, um final melhor às histórias de violência doméstica, continuou.

Para Daniel Cotrim, as questões da violência doméstica devem ser encaradas a dois níveis. Por um lado, a violência doméstica é um crime e tem de ser tratado e punido o agressor, protegida a vítima e apoiada a vítima. E por outro lado, há que perceber quem é o homem e quem é a mulher que estão envolvidos numa situação de violência doméstica em cada caso concreto.

“E aí nós vamos ter menos situações de homicídio, menos situações violentas e é possível haver muitas situações felizes”, rematou.