A urgência hospitalar continua a ser a principal porta de entrada para os internamentos e registou um aumento entre 2008 e 2014, segundo um estudo sobre o desempenho clínico dos hospitais do Serviço Nacional de Saúde (SNS).

O estudo, encomendado pelo Ministério da Saúde à consultora Iasist, analisou a atividade dos hospitais do Serviço Nacional da Saúde (SNS), nos anos de 2008, 2013 e 2014 e visou avaliar se a crise económica e social que o país tem vivido nos últimos anos, teve repercussões, e de que tipo, na atividade hospitalar.

Segundo o documento, “a atividade de urgência mantém níveis muito elevados, ao contrário do que se pretenderia, tendo-se até registado um ligeiro aumento (1%) de 2013 para 2014”.

Outro dado que consta do relatório, disponível no site da Administração Central do Sistema de Saúde (ACSS), refere-se ao “aumento substancial de internamentos programados e a maior capacidade resolutiva em sede de cuidados de saúde primários são ainda desideratos longínquos”.

“A percentagem de admissões para internamento via urgência mantém valores elevados, na ordem dos 70%”, lê-se no documento.

O estudo aponta para a diminuição do número de camas para doentes agudos (camas hospitalares), compensada pelo “crescimento da rede de camas de cuidados continuados integrados, na razão de 1 para 2,7”.

“Há, assim, um efetivo aumento de camas, registando-se maior equilíbrio na sua distribuição entre os dois setores, face ao envelhecimento, às doenças crónicas e à necessidade crescente de reabilitação ou cuidados paliativos”, refere o documento.

As situações analisadas variaram consoante os hospitais. Nos hospitais centrais, por exemplo, registou-se “uma redução significativa de camas entre os dois anos (menos cerca de 15%), fruto, possivelmente, dos ajustamentos verificados na distribuição de áreas populacionais e das fusões empreendidas”.

“Há alguns hospitais em todos os grupos com real pressão sobre as camas, apresentando taxas de ocupação média anual muito próximas ou superiores a 100%”, prossegue o documento.


No caso dos hospitais centrais, estes “viram significativamente diminuída a sua atividade de urgência, num valor médio superior a 18%”.

Outro dado apurado aponta para um aumento da complexidade dos doentes tratados em internamento entre 2008 e 2014, “fruto, em parte, da maior exaustividade no preenchimento dos processos clínicos por parte dos médicos”, mas também “do efeito conjugado do envelhecimento, com a diminuição da atividade na área materno-infantil, com a desnatação exercida pelo setor privado e com a ambulatorização crescente de procedimentos cirúrgicos de baixa/média complexidade”.

Em relação aos recursos humanos dos hospitais do SNS, estes “aumentaram entre 2008 e 2014, tanto em número de efetivos em tempo completo (+7,0%), como em Equivalente a Tempo Completo (+17,8%)”.

“Na área médica, registou-se igualmente um aumento do número de profissionais a tempo completo de 2008 para 2013 (+22,8%), assim como no último ano (+0,6%). No que diz respeito aos ETC, registou-se um aumento de 12,4% entre 2008 e 2014 e um aumento menos acentuado no último ano (+1,1%)”.
 

Menos camas e fecho de SAP aumentaram afluência às urgências 


A redução do número de camas hospitalares e o encerramento de Serviços de Atendimento Permanente (SAP) são as razões principais para o aumento da afluência às urgências hospitalares, que se encontram “sobrelotadas”, segundo a internista Maria da Luz Brazão.

Esta médica coordena o primeiro Congresso Nacional da Urgência, que acontece a 24 e 25 de outubro no Funchal e que vai procurar “soluções para os serviços de urgência nacionais”.

Maria da Luz Brazão disse à agência Lusa que o objetivo de quem trabalha numa urgência – que “felizmente são maioritariamente os internistas – é manter a qualidade do atendimento”.

Uma tarefa que tem sido dificultada pela “sobrelotação” em que se encontram os serviços.

“Estamos preocupados com a sobrelotação da urgência, o que não é exclusivo português, pois tem acontecido em todo o mundo”, disse.


Em Portugal, contudo, tem-se assistido a um aumento da esperança de vida que se tem traduzido em mais doentes idosos, com mais doenças.