O secretário-geral do Sistema de Informações da República Portuguesa (SIRP) disse esta quarta-feira que “foi um choque” a detenção de um funcionário do SIS por alegada espionagem, lembrando que esta situação pode acontecer a qualquer serviço de informação do mundo.

“Foi um choque as suspeitas de um elemento dos serviços a vender informação a um serviço estrangeiro”, afirmou Júlio Pereira no debate “Desafios para a segurança de Portugal numa perspetiva europeia, africana e transatlântica”, organizado pelo American Club of Lisbon.

No entanto, lembrou que nenhum serviço de informação do mundo está “imune a uma situação destas”, podendo acontecer a qualquer um.

“Estas coisas acontecem, aliás estamos a lidar com os ‘big masters’ da espionagem”, disse, realçando que “foi a primeira vez” que um funcionário do Serviço de Informação e Segurança (SIS) português foi detido.

“Há quem queira saber aquilo que nós pretendemos guardar. Às vezes é bem-sucedido, o que é difícil é nós chegarmos lá e conseguir descobrir estas coisas”, adiantou.

Questionado pelos jornalistas no final do debate, Júlio Pereira afirmou apenas que os serviços vão tirar “as conclusões pertinente em função daquilo que for apurado”, escusando-se a avançar com mais informações alegando que o assunto está nos tribunais.

Na semana passada e durante a apresentação das novas páginas de internet do SIRP, SIS e Serviço de Informações Estratégicas de Defesa (SIED), Júlio Pereira afirmou que decorrem procedimentos internos para reforçar os mecanismos de segurança na sequência da detenção do funcionário do SIS.

Também um comunicado publicado na página de internet do SIS, refere que os indícios "de comprometimento de atividade operacional na área da contraespionagem" levaram a um conjunto de "averiguações internas" que, conjuntamente com o "apoio prestado pela cooperação internacional", permitiu recolher "elementos seguros sobre a realização de encontros clandestinos no estrangeiro entre um funcionário do SIS e um outro de um serviço de informações estrangeiro".

Como sequência destes resultados, o secretário-geral do SIRP, segundo o mesmo comunicado, participou, em novembro de 2015, ao Ministério Público a suspeita da prática de crime de espionagem, a favor de um serviço congénere estrangeiro, envolvendo o oficial de informações do SIS.

O funcionário do SIS detido em Roma por alegada espionagem ficou na semana passada em prisão preventiva por decisão do juiz do Tribunal Central de Instrução Criminal (TCIC).

De acordo com os investigadores da operação "Top Secret", o funcionário do SIS é suspeito de transmissão de informações a troco de dinheiro a um agente dos serviços de informações russo, tendo o juiz do TCIC decidido que Frederico Carvalhão Gil está fortemente indiciado dos crimes de violação do segredo de Estado, espionagem e corrupção, deixando contudo de constar o crime de branqueamento de capitais.

Também presente no debate desta quarta-feira, o antigo ministro da Administração Interna Rui Pereira afirmou aos jornalistas que “os serviços de informação portugueses provaram a sua maturidade, competência e capacidade por terem detetado a situação e terem inclusivamente proporcionado uma detenção em flagrante delito”.

“Eu ficaria preocupado se o caso não tivesse sido detetado, mas este caso prova que nenhum serviço de informações do mundo está imune a que alguém o traia e venda os seus serviços a um serviço estrangeiro”, disse Rui Pereira, que foi também diretor do SIS entre 1999 e 2000.

Rui Pereira considerou ainda que é necessário cuidado e exigência no recrutamento de funcionários, mas que tal já acontece nos serviços de informação portugueses.