A greve nacional dos enfermeiros registou uma adesão média nos dois dias entre os 75% e os 80%, “sendo hoje mais claro uma elevada ausência de enfermeiros nos centros de saúde”, revelou hoje o Sindicato dos Enfermeiros Portugueses (SEP).

José Carlos Martins, dirigente do SEP, indicou que os dados de adesão no turno noite rondou os 84% e que os números, até ao momento recebidos da maior parte dos hospitais, no turno da manhã estão acima dos 74,5%.

“Isto aponta para uma adesão média entre os 75% e os 80% nos dois dias, o que traduz bem a revolta dos enfermeiros”, afirma.


O Ministério escusa-se a comentar os níveis de adesão desta greve, afirmando que só podem ser aferidos depois de processadas as remunerações, mas referindo-se às greves anteriores diz que os números do sindicato são “fantasiosos”.

A isto o SEP responde acusando a tutela de “falsear” os valores que aponta (56% de adesão na greve de março, por exemplo) e desafia o ministério a “colocar no seu portal os dados, com o número de enfermeiros escalados e aderentes em todas as instituições”, à semelhança do que o sindicato diz fazer sempre.

“Em todas as greves, o SEP publica no site, instituição por instituição, o número de enfermeiros escalados e o número de aderentes à greve. Desafio o Ministério da Saúde a fazer o mesmo no seu portal”, para comprovar o que afirma, disse.


Quanto a esta greve de dois dias, que teve início às 00:00 de quinta-feira, “os enfermeiros têm razões acrescidas para exigir contrapropostas de valorização”, considerou.

Essas “razões acrescidas” têm a ver com o facto de o Ministério da Justiça já ter assumido e apresentado propostas de revisão salarial e suplementos para juízes, o da Administração Interna já ter assumido a revisão salarial das forças policiais e de o Ministério das Finanças já ter assumido a nova carreira com acréscimo salarial, afirmou.

“No Ministério da Saúde parece não faltar dinheiro para recrutar médicos aposentados, para dar incentivos para deslocação para a periferia e para atribuir incentivos a médicos das USF [Unidades de Saúde Familiar] modelo A e das Unidades de Cuidados de Saúde Personalizados. Neste quadro, os enfermeiros não compreendem e não aceitam e acham inadmissível e intolerável esta discriminação por parte do Governo e do Ministério da Saúde”, disse.


O SEP diz esperar que a tutela apresente contra propostas nos próximos dias e, caso não o faça, a direção nacional do SEP reúne-se em junho e vai decidir “novos processos de luta, que incluirão greves e outras ações”.

Confrontado com as críticas do Ministério da Saúde, que considerou de “difícil justificação” uma greve marcada quando está a decorrer (desde 13 de maio) um processo negocial com a Comissão Negociadora Sindical dos Enfermeiros (CNESE), José Carlos Martins confirmou que decorre esse processo negocial, mas sublinhou que o que está a ser negociado são “outras matérias que não o salário”.

“Dentro desse Acordo Coletivo de Trabalho tem que haver grelhas salariais e apresentámos propostas ao Ministério da Saúde, mas ainda não obtivemos resposta”, disse, explicando que exigem o mesmo nível de salários da restante função pública, porque “os enfermeiros são os licenciados que menos ganham na administração pública”.


Em comunicado divulgado na quinta-feira à tarde, além de criticar a oportunidade da greve e considerar fantasiosos os números do sindicato, o Ministério da Saúde lembrou ainda algumas das medidas que tem tomado em resposta às preocupações e reivindicações dos enfermeiros, como a criação da figura do Enfermeiro de Família ou a contratação de 2.383 profissionais de enfermagem desde 2013, 839 dos quais já este ano (até 3 de junho).