O sheik Munir, líder espiritual muçulmano, garantiu terça-feira a «todas as organizações» que «podem contar com o apoio» da comunidade islâmica no combate à mutilação genital feminina (MGF), reiterando que «o Islão não aprova a prática».

No contexto de uma tertúlia que terça-feira à noite se realizou na Mesquita Central de Lisboa, sheik Munir apelou a que «não se utilize o Islão para fins próprios» e frisou que «mutilar qualquer parte do corpo é proibido» aos olhos da religião muçulmana.

«Tudo o que beneficia, o Islão aceita, tudo o que prejudica, o Islão rejeita», realçou, perante várias dezenas de pessoas que assistiam à tertúlia, promovida pelo Clube de Filosofia Al-Mu'tamid, em parceria com a Comunidade Islâmica de Lisboa.

«Se a MGF fosse uma prática muçulmana, as filhas do profeta Maomé teriam sido mutiladas e nenhuma delas o foi», observou.

Recordando o primeiro sermão de sexta-feira, em que resolveu abordar o tema, já há uns anos, sheik Munir reconheceu que não foi fácil e que até recebeu «ameaças», mas que continuou a falar sobre a MGF, não para «desafiar» os quase 90 por cento de muçulmanos em Portugal que são oriundos de África, mas para lhes «explicar» que a prática «nada tem a ver com o Islão».

Também oradora na tertúlia, Diana Lopes, do movimento Muskeba, afirmou que a lei que penaliza a MGF adotada recentemente na Guiné-Bissau, país de língua portuguesa onde sensivelmente metade das mulheres são sujeitas a esta prática, «não está a ser aplicada», porque «a comunidade não aceita» que possa ser um crime.

A jurista frisou que a comunidade guineense em Portugal é ainda «muito patriarcal» e que se impõe que as mulheres tenham «uma voz mais ativa».

Os médicos Mussa Omar e Joshua Ruah falaram sobretudo de circuncisão masculina, outro dos temas da tertúlia, mas o primeiro corroborou que «nada vem citado no Alcorão», livro sagrado para o Islão, sobre a MGF.

«Não tem nada a ver com religião», insistiu, contrapondo que «é uma violação do corpo das mulheres e das meninas, que traz grandes complicações para a saúde».

Reconhecendo que o tema é «controverso» entre as comunidades islâmicas, Mussa Omar referiu que «há literatura» que classifica a MGF como «uma obrigação religiosa».

O médico muçulmano falou depois sobre «as vantagens» da circuncisão masculina, que recordou ser «uma prática generalizada», que deve, porém, ser realizada apenas «em meio hospitalar».

Por seu turno, o médico Joshua Ruah denunciou o que considerou ser «um movimento xenófobo contra a imigração muçulmana na Europa», que passa pela tentativa de criminalização do ritual de circuncisão masculina, que tanto judeus como muçulmanos praticam, rejeitando que aquele possa ser «uma violação da integridade física».