O presidente da Rede Europeia Anti-Pobreza (EAPN Europa), Sérgio Aires, afirmou esta terça-feira que o combate à pobreza não tem sido uma prioridade dos governos europeus, que adotaram um modelo de crescimento económico que privilegia o lucro.

“Não nos parece que nos últimos quatro, cinco, seis anos o combate à pobreza tenha sido uma prioridade e quando olhamos para a estratégia europeia ‘Europa 2020’ e todos os outros mecanismos de governação europeia” constata-se que “o objetivo da inclusão social é secundarizado pelo objetivo do crescimento”, disse Sérgio Aires à agência Lusa.


Esse crescimento está muitas vezes “preparado para ser feito à custa da redução de direitos em termos de proteção social e garantias de proteção ao cidadão”, sublinhou Sérgio Aires.

O papel da Europa no mundo relativamente ao combate à pobreza vai estar em debate hoje e na quarta-feira, na Figueira da Foz, no VII Fórum Nacional de Combate à Pobreza e Exclusão Social, promovido pela EAPN Portugal para assinalar o Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza (17 de outubro).

Segundo o presidente da EAPN Europa, o continente europeu, particularmente a União Europeia não tem conseguido combater este problema.

A situação de passar de “85 milhões de pobres em 2010 para 123 milhões em 2013” devia “fazer soar todas as campainhas da União Europeia e devia fazer com que os nossos dirigentes considerassem que este [combate à pobreza] é o primeiro objetivo”, frisou.

Advertiu, a este propósito, que “sem coesão social muito dificilmente haverá crescimento” ou então existirá “um crescimento que não é seguramente aquele que salvará as pessoas da pobreza”.

Mas os países com taxas de pobreza e de risco de pobreza mais altas sentirão mais dificuldade em fazer face a este fenómeno, que é global.

“Esse é um dos problemas que temos de ter em consideração e que muitas vezes é mal-encarado. Ou seja, pensa-se que a pobreza é um problema português, mas o problema da pobreza em Portugal não é um problema exclusivamente nacional”, salientou.


As suas causas estão também relacionadas com “o contexto internacional e o mundo em que vivemos”: “Se Portugal tem uma economia relativamente débil não se deve apenas à nossa responsabilidade, mas a muitas decisões que foram tomadas ao mais alto nível em termos globais”.

Para Sérgio Aires, a causa do problema na Europa deve-se ao modelo económico adotado pelos governos, que “não põe em primeira instância o bem-estar das pessoas, mas o lucro de alguns em detrimento da pobreza dos outros”.

“O tipo de crescimento que a Europa quer ter está tendencialmente a ser feito à custa da vida das pessoas e do seu bem-estar, nomeadamente pela redução da prestação social, que é um caso paradigmático”, comentou.

“A proteção social, que é fundamental para a economia poder crescer, está hoje sob suspeita. É aí que se tem feito grandes cortes em todos os países, particularmente naqueles que mais têm sido afetados pela austeridade”, lamentou.