Os portugueses radicados na Venezuela estão a reforçar a segurança e ter o telemóvel carregado, estar em contato com familiares, blindar as viaturas, contratar guarda-costas ou ir cedo para casa são estratégias para se protegerem da criminalidade e dos sequestros.

Estas estratégias passam ainda por colocar grades nas janelas, instalar sistemas de vídeo-vigilância e portas de segurança nos apartamentos e contratar «encarregados» (gerentes) para os seus negócios.

«Temos que nos proteger tanto quando estamos fora de casa como dentro dela. O edifício tem uma cerca elétrica e temos um porteiro e o elevador precisa de uma chave especial», explicou à agência Lusa Francisco Fernandes, um empresário do ramo automóvel.

Natural da Madeira e a viver numa zona do leste de Caracas, explicou que «ninguém entra nem sai do edifício (onde vive) sem autorização prévia» porque não sabem quando alguém os «pode surpreender».

Segundo este português, tem havido alguns casos de grupos armados «que chegam, roubam as residências e sequestram pessoas».

«Os carros já há anos que estão blindados, tivemos que pagar uma fortuna, porque nem todas as viaturas podem ser blindadas e a blindagem custa quase o preço de um carro e é preciso esperar alguns meses porque só há três empresas que fazem isso», disse.

«Extremamente preocupados» pela insegurança, principalmente pelos sequestros estão os comerciantes portugueses nas localidades de Caucágua, San José de Rio Chico e Higuerote, no estado venezuelano de Miranda, entre 70 e 120 quilómetros a leste de Caracas.

«Não é só os assaltos, são os sequestros e os assassínios. De vez em quando acontecem vários casos seguidos. Diz-se que esta área está na mira de um grupo de sequestradores liderado por um colombiano, que devido às ações policiais tinha ido para outro lado, mas que regressou e isso preocupa-nos muitíssimo», disse um comerciante à agência Lusa, que pediu para não ser identificado.

Este português explicou que alguns elementos da comunidade portuguesa local contrataram antigos polícias para acompanhar os filhos à escola e os familiares nas diligências diárias, acrescentando que há portugueses que se mudaram para Caracas com a família para assim passar menos tempo na zona e outros que confiaram os negócios a «encarregados», que, no entanto, se recusam a ficar sozinhos à frente dos comércios.

Segundo Milú de Almeida, conselheira das Comunidades Portuguesas, as preocupações pelos raptos, assaltos e assassínios, são «uma constante no país, que afeta tanto cidadãos nacionais como estrangeiros».

«Agora, até há uma modalidade nova que se chama sequestro expresso prolongado, que ao contrário do sequestro rápido tradicional a vítima é mantida em cativeiro até uma semana, enquanto decorrem as negociações com os familiares», disse.

A responsável revelou mesmo que nos últimos três anos um seu familiar muito próximo foi sequestrado três vezes.

Segundo fontes da comunidade portuguesa, pelo menos duas dezenas de portugueses foram sequestrados desde janeiro último na Venezuela, dos quais dois foram assassinados, um número que admitem estar muito aquém da realidade, porque as pessoas, por receio, não divulgam os casos.

Desde há três semanas que se desconhece o paradeiro de um português que foi sequestrado no estado venezuelano de Táchira, 830 quilómetros a sudoeste de Caracas.

Além das recomendações descritas pela comunidade, um folheto divulgado pela Embaixada de Portugal em Caracas recomenda aos portugueses a não darem informações sobre as suas atividades, a não exibirem sinais exteriores de riqueza e a terem cuidado à saída e entrada dos estacionamentos.

Recomendações semelhantes têm sido transmitidas à comunidade portuguesa em Moçambique, que começou recentemente a ser alvo de sequestros naquele país, quando até há pouco tempo as vítimas eram sobretudo empresários da comunidade islâmica.

Desde julho último, foram raptados quatro portugueses em Moçambique, todos já libertados.