A greve dos enfermeiros do Instituto Português de Oncologia (IPO) do Porto regista, esta terça-feira, uma adesão de 100% no internamento, segundo fonte sindical, refletindo o «descontentamento» gerado pela «grave carência» destes profissionais e consequente «sobrecarga» de horários.

«Esta greve é o reflexo do descontentamento dos enfermeiros - não só do IPO, porque esta situação vive-se nos hospitais da região do Porto e em todo o país - quanto à grave carência de enfermeiros existente nos serviços hospitalares», afirmou a presidente do Sindicato dos Enfermeiros Portugueses (SEP), Fátima Monteiro, em declarações aos jornalistas durante uma concentração de profissionais junto ao IPO.

Segundo a dirigente do SEP, «a falta de profissionais é particularmente sentida nos internamentos dos serviços de medicina e de cirurgia», em que se acumulam «horas e horas em débito aos enfermeiros, que trabalham 12 e 18 horas seguidas sem terem os descansos compensatórios, o que os leva à exaustão».

Já no bloco operatório o problema «não é tão sentido» e «não se sente esta sobrecarga de horários», mas a dirigente sindical admitiu que tenha havido adiamento de cirurgias.

Contactada pela agência Lusa, a administração do IPO do Porto remeteu para o Ministério da Saúde a divulgação de dados relativos à adesão à greve dos enfermeiros, que decorre durante a manhã e tarde de hoje.

De acordo com a responsável do SEP, existem cerca de 900 enfermeiros no IPO, sendo que, no último ano, saíram cerca de 30 profissionais e «só foi autorizada a entrada de 10».

Globalmente, disse Fátima Monteiro, «faltam cerca de 125 mil enfermeiros nas instituições de saúde em Portugal».

«É incrível que o Governo invista na formação de profissionais altamente qualificados e, depois, não os admita e estes vão a custo zero para o estrangeiro», considerou, apontando como «responsáveis» por esta situação o Governo e o Ministério da Saúde.

Segundo a sindicalista, «os conselhos de administração [das instituições hospitalares] sentem esta dificuldade, mas referem que pedem contratos de substituição à tutela para licenças de maternidade e outros e estes demoram seis meses a um ano, já quando o trabalhador regressa, e o serviço não comporta esta situação».

Salientando que «quem paga isto tudo são os trabalhadores, que ficam sem folgas e têm trabalho extraordinário que não é pago», Fátima Monteiro afirma que a «boa vontade» da classe «chegou ao limite»: «A tutela tem que ter um processo célere de contratação de enfermeiros para que esta situação não se verifique, porque o que está em causa são os cuidados que se prestam aos doentes e a segurança dos profissionais», sustenta.

A dirigente sindical diz que os atuais ritmos de trabalho dos enfermeiros são inaceitáveis «até em defesa do utente e do Serviço Nacional de Saúde (SNS)», sendo que, «no caso do IPO, os doentes são especiais e requerem muito mais atenção do ponto de vista físico e psicológico», pelo que «os enfermeiros com ritmos aumentados de trabalho estão muito mais suscetíveis a cometer algumas falhas».

É que, recorda, o próprio aumento da carga de horário semanal das 35 para as 40 horas «já é uma sobrecarga demasiada, com a OMS [Organização Mundial de Saúde] a dizer que os profissionais de enfermagem não devem trabalhar mais do que 35 horas, quando há colegas que trabalham 70 horas por semana ou mais».

Para o sindicato, a não-destruição do SNS implica que se motive os profissionais de saúde «remunerando-os devidamente», porque se trata de «mão-de-obra altamente qualificada e necessária para o bom funcionamento das instituições».

De acordo com Fátima Monteiro, na última reunião mantida com o SEP, o ministério disse que iria «tentar que o processo [de contratação de enfermeiros] fosse mais célere, mas a verdade é que este problema é mais sentido nas alturas de férias e, até agora, nada foi feito».