Uma mulher de 38 anos, que se apresentava como funcionária da Segurança Social, justificou esta quarta-feira no tribunal do Funchal, onde responde por 17 crimes de furto, a sua conduta por falta de dinheiro para sustentar a família.

«Na altura, só pensava que tinha de arranjar dinheiro para a casa», explicou a arguida, nas Varas de Competência Mista do Funchal.

A mulher, com quatro filhos, informou que estava desempregada, mas não auferia o respetivo subsídio, tendo solicitado apoio à Segurança Social, que chegou «sete meses depois» do pedido, mas posteriormente deixou de o receber.

Confrontada pelo presidente do coletivo de juízes, Filipe Câmara, com o despacho de acusação, que lhe imputa 17 crimes de furto, nas formas qualificada e simples, consumada e tentada, a mulher reconheceu que «tem coisas que é verdade», confessando ter-se assumido como funcionária da Segurança Social e da Cáritas e abordando pessoas idosas, atendendo à sua vulnerabilidade em termos de idade.

Segundo o Ministério Público, a arguida, como «não possuía rendimentos nem bens que lhe permitissem o seu sustento e do seu agregado familiar, gizou um plano» para se apropriar de dinheiro e de objetos com valor económico, «concretamente artigos e joias em ouro», que vendia nas lojas de compra e venda de ouro usado na cidade do Funchal.

«Para o efeito, decidiu abordar pessoas idosas na via pública, nas unidades hospitalares, nas instalações da Segurança Social e nas suas próprias residências, onde acabou por entrar» intitulando-se como «funcionária da Segurança Social ou voluntária de instituições de solidariedade social ou funcionária de outras instituições públicas», refere o MP.

Para o MP, nestes locais, a mulher, detida preventivamente, encetava diálogo com as vítimas, prometendo «ajudá-las com alimentos, subsídios e resolução de outras questões», ganhando, dessa forma, a confiança daquelas.

À pergunta do magistrado do MP, José Paulo Oliveira, se tinha consciência de que algumas das suas vítimas também tinham dificuldades e que o dinheiro que recebiam das reformas não dava para pagar os remédios, a arguida respondeu: «Quando trocava o ouro pensava no mal que estava a fazer e ficava envergonhada e com remorsos».

A acusada garantiu, ainda, que o dinheiro que obteve com esta atuação «não era para mais do que comprar o pão para os filhos».

Já quando questionada pela sua defensora oficiosa, Lena Pacheco, a mulher informou que houve casos em que «algumas pessoas a convidavam para entrar em casa, porque necessitavam de ajuda», acrescentando: «Estou muito arrependida. Fiz o que fiz para eles [filhos] não irem parar a uma instituição».

Hoje, o tribunal ouviu, também, seis ofendidas. Uma referiu-se à arguida como a mulher que a «roubou».

«Tinha tudo [230 euros] dentro do porta-moedas», disse a testemunha, afiançando que ficou sem dinheiro para comer, pelo que foi obrigada a recorrer a um vizinho para lho emprestar.