O livro "A Lista do Padre Carreira", de António Marujo, é apresentado na sexta-feira em Leiria, a terra natal do sacerdote devoto de Fátima que ajudou a salvar judeus, comunistas e socialistas numa Roma ocupada por nazis.

O livro aborda a história do padre Joaquim Carreira, que nasceu em 1908 numa aldeia da freguesia da Caranguejeira, em Leiria, e que entre 1943 e 1944, durante a ocupação nazi de Roma, ajudou a proteger e a esconder várias pessoas perseguidas pelo III Reich.

Enquanto reitor do Pontifício Colégio Português, em Roma, o padre teve consciência de que "tinha que fazer alguma coisa" contra aquilo que considerou serem leis "desumanas", disse à agência Lusa o autor da obra, o jornalista António Marujo, estimando que o padre tenha ajudado cerca de 200 pessoas durante o período de ocupação, "sem pedir um cartão de identidade" a ninguém, fossem ‘partigiani' (resistência italiana aos nazis) ou judeus.

O trabalho de investigação de António Marujo em torno de Joaquim Carreira começou em 2006, quando teve conhecimento de que, entre setembro de 1943 e junho de 1944, pelo menos 4.300 judeus foram acolhidos em mais de 430 casas religiosas femininas em Roma.

A partir desse momento, o autor procurou perceber se o Colégio Português teria também recebido refugiados durante a guerra.

Depois de encontrar referências vagas relativas a esse assunto, António Marujo descobriu um relatório com uma lista de 39 nomes de refugiados que o padre Carreira acolheu durante os nove meses de ocupação.

Posteriormente, teve também acesso à correspondência entre o sacerdote português e uma mulher de Leiria, em que Joaquim Carreira faz alusão "a mais umas cento e tal mulheres e crianças" que distribuiu por três casas de freiras.

O padre "tinha uma personalidade muito discreta e falava muito pouco daquilo que tinha acontecido", explana António Marujo.

Para o livro, o jornalista conseguiu recolher testemunhos dos refugiados em cartas, tendo encontrado dois vivos: um judeu e um filho de um líder socialista da Calabria.

O testemunho do mais novo dos três judeus identificados na lista, Elio Cittone, levou a instituição israelita Yad Vashem, Centro Mundial para a Memória do Holocausto, a reconhecer o padre Carreira como "Justo entre as Nações", em setembro de 2014. Esta distinção simbólica reconhece o risco que não-judeus correram para salvar judeus e, ao mesmo tempo, expressa a gratidão do povo judeu e do Estado de Israel.

O padre, que foi também o primeiro sacerdote português com brevet de piloto aviador, formou-se em Leiria e desempenhou várias funções na diocese e no seminário, antes de ir para Roma.

Joaquim Carreira, pessoa de pouca roupa, poucos bens e poucos livros, "era um homem muito ligado às formas do catolicismo da sua época", com reserva "a algumas mudanças" da Igreja, mas que "soube perceber que essas questões não eram essenciais", conta António Marujo.

Pessoa discreta e muito franciscana, teve na Nossa Senhora de Fátima a sua "devoção maior".

Os acontecimentos de Fátima marcaram-no "para a vida toda", tendo influenciado a sua decisão de optar pelo sacerdócio, referiu António Marujo.

Joaquim Carreira morreu em Roma a 07 de dezembro de 1981.

O livro é apresentado na sexta-feira, às 21:30, no Museu de Leiria, pelo diretor do Mosteiro da Batalha, contando também com a participação do bispo de Leiria-Fátima na sessão.

António Marujo é jornalista desde 1985 e foi distinguido em 1995 e 2006 com o prémio europeu de jornalismo religioso na imprensa não-confessional.