O plano para levar os três irmãos para os Estados Unidos passou por uma portuguesa, que durante uma década foi secretária pessoal de Edir Macedo.

A filha do líder da IURD não tinha idade nem residência para adotar em Portugal e até relata no seu blog pessoal como o seu processo de adoção não foi aceite.

Por isso, é Macedo que dá a ordem para que Alice Andrade fosse inscrita com um pedido de guarda para retirar as crianças do Lar da Universal.

Vera, Luís e Fábio foram retirados aos pais biológicos sem que a mãe tenha sido ouvida por um tribunal.

As crianças saíram de Portugal pela mão de Alice e foram entregues nos Estados Unidos à filha do bispo Macedo como se de encomendas se tratasse.

Foi Nídia Martins, advogada do lar que recusou dar uma entrevista à TVI e que também adotou umas gémeas no lar, que pediu ao tribunal uma guarda dos irmãos para Alice.

A TVI teve acesso a uma gravação em que Alice Andrade confessa o esquema:

“O bispo Macedo mandou ela botar o meu nome, mandou ela dar entrada da guarda, em meu nome, e quando eu fui falar com ela, no dia seguinte, já ela tinha dado entrada [do processo] sem falar comigo. E ela disse-me assim: ‘Se o bispo Macedo mandou, eu pensei que ele tivesse falado consigo’. E eu disse: ‘Não, o bispo Macedo não falou comigo’. Ele só ligou para mim e disse: ‘Você quer ajudar umas crianças do lar?’. E eu disse: “Lógico que quero!’”

Um processo que foi feito completamente ao contrário. Ao abrigo do artigo 19 da Organização Tutelar de Menores, Alice teve a guarda dos irmãos. Mas na Igreja Universal do Reino de Deus, a versão era outra: Viviane Freitas, filha de Edir Macedo, conta como adotou duas crianças, Vera e Luís, e nunca menciona Fábio, o mais novo.

A verdade é que os dois irmãos nunca foram adotados por Viviane e Júlio Freitas, como comprovam os documentos a que a TVI teve acesso. A adoção só acontece oito anos depois de saírem do lar e a mãe adotiva das crianças é Alice Andrade, que por esta data já não era bem-vinda nos cultos da IURD.

A 16 de setembro de 1996, "Ana", a funcionária do lar escolhida para ser babysitter das crianças, viaja para os Estados Unidos.

"Fui escolhida, entre as funcionárias do lar, para ir como babysitter deles . Eles vão à guarda da Alice e depois são dados ao Júlio e à Viviane. Eles vão para casa do Edir Macedo", na Califórnia.

"Ana" garante que, uns dias mais tarde, chegaram os três irmãos. Segundo o que a TVI apurou, terão viajado num avião privado. E a TVI sabe que a guarda dos irmãos para Alice só foi decretada pelo tribunal a 3 de abril de 1997.

Entretanto, Viviane decide ficar só com Vera e Luís. O irmão mais novo, Fábio, não ficou na família Macedo. Contrariando, mais uma vez, as ordens do tribunal, que ordenou que os três ficassem juntos, a viver em Portugal, Fábio acabou por viajar para o Rio de Janeiro, para casa de outro bispo, Romualdo Panceiro, que agora é líder da IURD para Portugal e para a Europa.

Apesar de separados, Alice tinha de os juntar de cada vez que tinha de regressar ao tribunal português.

“Todos os anos tinha que comparecer em tribunal, mostrar que as crianças estavam bem tratadas. Era só isso”, diz a própria, na mesma gravação que a TVI revela.

Quando voltavam aos Estados Unidos, regressavam a casa de Viviane, e a babysitter recorda episódios de maus-tratos.

"Há um dia em que o Luís faz xixi na cama, eu tiro roupa da cama, dou-lhe banho e ela apanha-me com a roupa na mão e eu contei que ele tinha feito xixi. Ficou possuida, foi à cozinha e deu com um tacho no rabo do Luís”, conta "Ana", que, de uma vez que voltou a Portugal para ir a tribunal com Alice e as crianças, já não voltou para os Estados Unidos.

A continuação desta reportagem continua quinta-feira, no episódio 4.