Os fluxos migratórios estão sempre a mudar de rotas, o que obriga a uma «atualização constante» por parte das autoridades, disse à Lusa um inspetor do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF).

A bordo do navio-patrulha oceânico «Viana do Castelo», da Marinha Portuguesa, que vigia a costa italiana, ao largo da ilha de Lampedusa, ponto de passagem de muitas das rotas migratórias oriundas da Líbia e da Tunísia, o inspetor Nuno Palheira explicou que estes fluxos migratórios estão nas mãos de redes organizadas, que começam no país de origem.

Angariadores e falsificadores de documentos estão no início de uma cadeia que depois recorre aos chamados facilitadores, que arranjam as embarcações e, muitas vezes, aproveitam para emigrar também.

«As primeiras levas são bastante consistentes e às vezes são testes, para ver se está ali algum buraco onde possam entrar. Quando começam a ser descobertos, divergem para outra rota», descreve o inspetor, sublinhando que tal exige um «cuidado redobrado nas fronteiras externas» da Europa.


Nuno Palheira é um de dois inspetores do SEF que participam, até final deste mês, na Operação Triton, coordenada pela Frontex, agência europeia de gestão e controlo das fronteiras.

A bordo do navio português, o inspetor tem a missão específica de realizar entrevistas a imigrantes para apurar informação sobre estas redes.

«A observação começa desde o momento em que encontrámos a embarcação, até ao momento em que [os imigrantes] são colocados a bordo do navio», explica o inspetor, há dez anos no SEF, mas estreante em operações marítimas.

«Não é um interrogatório, não vamos forçar ninguém a dizer nada. Temos que apanhar pessoas que estejam dispostas a dar informação», frisa, referindo a importância de analisar a linguagem corporal a bordo das embarcações resgatadas.


A qualidade prevalece sobre a quantidade, resume. «A observação prévia é bastante importante. Tentamos apurar logo de início quem são as pessoas que nos podem dizer alguma coisa», diz.

A janela de oportunidade para as entrevistas é reduzida, porque, uma vez colocados em zonas comuns, os facilitadores «tendem a misturar-se» com os outros passageiros, sobre os quais exercem «pressão psicológica».

Além disso, as entrevistas estão no fim de uma cadeia, que tem como prioridade prestar assistência a quem é resgatado – invariavelmente com sede e fome, e, por vezes, com problemas de saúde.

Se mortes, doenças ou mau tempo não os impedir, Nuno Palheira tentará identificar redes e rotas – informação que depois enviará para a Frontex, que não tem competências para desencadear investigações, mas pode passar a informação às autoridades italianas.

O navio «Viana do Castelo» já participou em pelo menos três resgates, envolvendo mais de 400 pessoas, que depois transportou para o porto de Catânia, na Sicília.