A abertura do concurso para admitir novos espiões para as secretas portuguesas até foi, em quase tudo, muito secreto. Um anúncio publicado nos jornais a 5 e 6 de junho dizia que um “organismo público, com sede em Lisboa, necessita de admitir para os seus quadros licenciados”. Quem concorreu e questionou a origem do anúncio ficou a saber que tinha sido colocado pela Presidência do Conselho de Ministros, de que dependem os Serviços de Informações da República Portuguesa (SIRP).
 
Trezentas e oitenta e três pessoas responderam ao anúncio. A 19 de junho, receberam um email dos serviços (proveniente de um endereço de Gmail) para confirmarem o seu interesse na candidatura. É aqui que o processo deixa de ser secreto: na lista de destinatários estavam os endereços de email de todos os candidatos. De acordo com o “Diário de Notícias” (DN), que esta quarta-feira divulga o caso, entre os interessados em seguir a carreira de espião, estão quadros da GNR, da Autoridade Tributária e do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras. Muitos utilizaram o mail de serviço para apresentarem a candidatura.
 
O DN diz ter contactado alguns dos candidatos que se mostraram “surpresos” com o episódio. “Até pensei que não era verdade. Não percebo como isto é possível. Onde está a segurança e a proteção das nossas identidades? Ninguém tem nada que saber que concorri, ainda mais a um organismo desta natureza”, reclama um dos candidatos ouvidos pelo jornal.
 
O incidente pode obrigar a repetir todos os procedimentos do concurso. O constitucionalista Bacelar Gouveia sublinha que “o sigilo foi comprometido, não só a identidade dos candidatos como o próprio processo de recrutamento e, por isso, o melhor é começar de novo”.
 
O caso traz à memória o episódio que, em 1999, fez cair o então ministro Veiga Simão. Na situação mais recente, estamos a falar de candidatos a espiões, mas na altura foram revelados dados de 69 espiões (nome, respetivo salário e até missões levadas a cabo). Veiga Simão autorizou o envio da lista para a comissão de inquérito aos serviços secretos. A lista acabou parcialmente divulgada por um jornal e o então ministro foi obrigado a demitir-se.