«PDAH» pode não soar-lhe a nada, e pode ser uma sigla desconhecida para si, mas é importante saber que é a denominação que corresponde à Perturbação de Défice de Atenção e Hiperatividade, um problema crónico de desatenção que perturba não só as crianças, como os adultos.


Sim, há adultos que sofrem de défice de atenção e de hiperatividade. Em Portugal, segundo o estudo epidemiológico nacional de saúde mental, realizado em 2013, a incidência é de 0,4 por cento nos adultos, enquanto nas crianças o número é um pouco mais elevado: 4,6 por cento.
 
Os autores deste estudo entrevistaram 2.060 indivíduos com mais de 18 anos de idade e utilizaram os instrumentos de avaliação do Inquérito Mundial da Saúde Mental (IA-WMHS), que tem um módulo que serve para fazer diagnósticos psiquiátricos, entre os quais transtornos de controlo dos impulsos, incluindo a PDAH.
Ainda que os números sejam baixos, a especiaista Sandra Pinho do Centro de Apoio ao Desenvolvimento Infantil (CADin) desmistifica este problema:

«A perturbação de défice de atenção e hiperatividade (PDAH) é a designação usada para descrever um problema crónico de desatenção, o que perturba o funcionamento no estudo, no trabalho e nas relações familiares e sociais.

Cada vez mais rapazes e raparigas, homens e mulheres, são diagnosticados com esta perturbação. Contudo, o que está a aumentar não é o número de pessoas com problemas de desatenção, mas sim o número de pessoas que reconhecem as suas dificuldades como sintomas de uma perturbação tratável, que ocorre tanto nos homens como nas mulheres, tanto nas crianças como nos adolescentes e adultos. Estas pessoas existiram em todas as gerações. No entanto, eram provavelmente interpretadas como pouco capazes, preguiçosas, imaturas ou desmotivadas. 

À medida que professores, psicólogos e psiquiatras testemunham as melhorias notáveis que se obtêm com o tratamento da PDAH, vão ficando mais alerta para os sintomas desta perturbação e sugerem a avaliação e intervenção para aqueles que possam beneficiar. 

As pessoas com PDAH habitualmente experimentam dificuldades em áreas como a organização no trabalho e no estudo, a gestão do tempo e do dinheiro, a toma de medicamentação e as relações interpessoais. Na maioria dos casos, os sintomas de PDAH persistem na adolescência e idade adulta tornando-se até mais problemáticos. 

Por definição, a PDAH deve desenvolver-se antes dos 7 anos de idade, mas frequentemente esta perturbação só é diagnosticada mais tarde. Tratando-se de uma desordem das funções executivas, e torna-se mais incapacitante à medida que o desenvolvimento do indivíduo impõe mais exigências a estas funções.
 
As exigências de autocontrolo e autorregulação aumentam rapidamente na escola básica e secundária e, sobretudo, nos primeiros anos do ensino superior. Nesta fase, os estudantes enfrentam uma série de exigências de organização e controlo das suas atividades cognitivas e sociais. Além disso, os pais começam a retirar a ajuda na organização e a exigir que o jovem se autonomize. 

A transição para a idade adulta representa inúmeros desafios às funções executivas do cérebro como gerir o tempo, o dinheiro e, por vezes, um lar; organizar o estudo; procurar e manter um emprego; moderar uso de substâncias; obter cuidados médicos; fazer e manter relacionamentos, entre outros. Assim, é nesta fase de forte apelo às funções executivas do cérebro, que muitos jovens e adultos com PDAH poderão enfrentar dificuldades mais flagrantes e incapacitantes, recorrendo a avaliações médicas das quais resultam o diagnóstico de PDAH.

Os sintomas centrais da PDAH são a desatenção, a impulsividade e a hiperatividade (manifestada, no adulto, por uma atividade mental incessante, sensação de inquietação e incapacidade para se envolver em atividades calmas ou sedentárias). 

Contudo, no adulto, esta perturbação envolve frequentemente outras dificuldades: a procrastinação (o adiar sistemático de atividades ou projetos importantes), a baixa tolerância à frustração, as rápidas variações do humor, a baixa autoestima, a desorganização (dificuldades na gestão do tempo e do dinheiro, na organização no lar, no trabalho e no cumprimento de prazos), os problemas de atitude no relacionamento com chefias, colegas e amigos, a dificuldade em controlar os impulsos nos relacionamentos interpessoais, a procura de sensações fortes e a gratificação imediata (resultando em consumos excessivos, comportamentos sexuais de risco e acidentes de viação).

Cerca de 75 por cento dos adultos com PDAH apresenta pelo menos uma outra perturbação psiquiátrica e cerca de 30 por cento apresenta duas ou mais perturbações. 

Entre as que mais frequentemente surgem associadas à PDAH estão: as perturbações do humor (depressão, mania, distimia), as perturbações da ansiedade (desordem de pânico, fobia social, agorofobia, etc.), as perturbações de oposição e de conduta, a perturbação obsessivo-compulsiva, as dificuldades específicas de aprendizagem (dislexia, disgrafia, discalculia), o abuso de substâncias, as perturbações do sono, a síndrome de Tourette.»


Sintomas de desatenção em adultos:
  • Ter dificuldade em manter a atenção na leitura 
  • Ter dificuldade em completar tarefas
  • Ter dificuldade em gerir o tempo
  • Ser distraído e esquecido
  • Ter fraca concentração
  • Ser desarrumado

Sintomas de hiperatividade em adultos:
  • Ser irrequieto
  • Ter os mãos ou pés inquietos quando está sentado
  • Falar excessivamente
  • Sentir-se oprimido 
  • Fazer uma seleção de empregos «ativos»

Sintomas de impulsividade em adultos:
  • Ser irritável e zangar-se facilmente
  • Conduzir com excesso de velocidade, provocando alguns acidentes de viação
  • Mudar impulsivamente de emprego