As taxas de resistência de alguns microrganismos multirresistentes diminuíram entre 2011 e 2014, a par de uma redução do consumo de antibióticos, mas ainda assim continuam elevadas, em alguns casos acima da média europeia, segundo um relatório esta terça-feira apresentado.

O aumento da resistência aos antibióticos constitui um “perigo para a saúde mundial”, que tem levado as autoridades de saúde a envidarem esforços para as boas práticas médicas e hospitalares, no sentido de prevenir infeções mais frequentes, revela o relatório “Portugal-Prevenção e Controlo de Infeções e de Resistência aos Antimicrobianos 2015”, da Direção-Geral da Saúde.

Em consequência dessas medidas, registaram-se “evoluções positivas no consumo de antimicrobianos, principalmente na classe das quinolonas (um dos medicamentos relativamente ao qual o número de bactérias resistentes tem aumentado), cujo consumo desceu, entre 2011 e 2014, 27% no ambulatório e mais de 8% a nível hospitalar”.

A situação mais preocupante é a da resistência elevada da bactéria Escherichia coli (responsável pela maior parte das infeções urinárias) aos antibióticos da classe das quinolonas.

Igualmente tem-se registado uma inversão da tendência crescente no consumo de carbapenemos (antibióticos de largo espectro utilizado em algumas infeções graves por agentes multirresistentes), que diminuiu 5% entre 2013 e 2014.

Em 2011, Portugal era o país da Europa que mais usava carbapenemos. Em 2014, apesar da redução de 5%, o seu consumo ainda era 2,3 vezes superior à média europeia, refere o documento, que destaca que, apesar de dever ser a “última alternativa terapêutica”, se tem verificado um “uso excessivo em alguns hospitais”.

O relatório salienta que “a principal ameaça” é constituída pelo microrganismo Klebsiella pneumoniae resistente aos antibióticos da classe dos carbapenemos, já presente em todo o mundo.

“Registaram-se surtos hospitalares de infeção por esta bactéria, pontuais e localizados, tendo sido implementadas medidas de contenção da sua disseminação”, revela.

Ainda no período entre 2011 e 2014, verificou-se também redução das taxas de resistência em alguns microrganismos multirresistentes, como Staphylococcus aureus resistente à meticilina, Enterococcus ou Acinetobacter, mas que ainda assim se mantêm elevadas, “considerando-se fundamental a sua redução”, um dos principais objetivos do programa.

O relatório lembra que apesar de os antibióticos serem indispensáveis para a medicina, têm que ser “criteriosamente utilizados”, pois, ao contrário do que acontece com outros medicamentos, o seu uso sistemático tende a torná-los menos eficazes, quer para a pessoa tratar, quer para a comunidade envolvente.

“Embora o aparecimento de resistências seja uma consequência natural da utilização destes fármacos, o seu uso desregrado tem acelerado e agravado essa tendência, ao ponto de terem emergido estirpes microbianas resistentes à generalidade dos antibióticos habitualmente usados”, sublinha.

Simultaneamente, tem-se verificado um decréscimo acentuado da descoberta de novas classes de antimicrobianos, o que dificulta ainda mais o tratamento de algumas infeções.

Os autores do estudo alertam ainda para o “prolongamento inapropriado da administração de antibiótico no pós-operatório em doente sem infeção - ocorrência prevalente em 2014 –, o que não melhora o prognóstico e ainda aumenta o risco de infeção por agentes multirresistentes no doente operado.

Este é um dos principais desvios das boas práticas verificado na utilização de antibióticos nos hospitais portugueses, “não sendo justificável a sua persistência”, consideram os especialistas.