As consultas com médico de família aumentaram e as idas a urgências de hospitais públicos diminuíram, mas em contrapartida mais do que duplicou o número de pessoas que recorreram a hospitais privados e a farmacêuticos, desde 2013.

As conclusões constam de um estudo encomendado pelo Ministério da Saúde à Universidade Nova, coordenado pelo economista Pita Barros, denominado “Políticas Públicas na Saúde: 2011-2015 Avaliação do Impacto”, e que foi hoje apresentado publicamente.

No âmbito do acesso à saúde, quando questionados sobre a forma de auxílio procurada pelos utentes quando se sentiram doentes, o estudo revelou que entre 2013 e 2015 diminuíram as idas a consultas sem marcação no centro de saúde ou a uma urgência de um hospital público, de 46,15% para 38,51% e de 40,29% para 36,79%, respetivamente.

Estes indicadores foram bastante salientados pelo coordenador do estudo, Pita Barros, que os contrapôs com o aumento das consultas marcadas com médico de família – de 15,48% para 29,24% - considerando-os bastante positivos e reveladores de que as taxas moderadoras não impedem o acesso à saúde, mas efetivamente moderam, evitando recurso a serviços urgentes de casos não urgentes.

Da mesma forma foi destacada a descida verificada no recurso a consultórios privados (de 5,52% para 3,76%).

No entanto, o mesmo item da avaliação revela um aumento da procura de “consulta de urgência de um hospital privado” – de 2,09% para 5,02% - e do número de respondentes que afirmaram ter consultado um farmacêutico quando se sentiram doentes – de 0,39% para 4,89% - aspetos a que o economista não se referiu.

No final da apresentação do estudo, das perguntas do público chegou a questão sobre o “número subtil mas muito significativo de 5% que passaram a consultar o farmacêutico”: por que deixaram estas pessoas de ir ao médico e passaram a ir ao farmacêutico?

“Não tenho explicação para aquele número incompleto, temos mesmo que confirmar se é aquilo”, respondeu Pita Barros, justificando não ter feito o seguimento das pessoas e não ter referido o número por só ter aparecido em 2015.

Para o ministro da Saúde, Paulo Macedo, “o farmacêutico pode ter um papel importante relativamente à adesão terapêutica e ao aconselhamento relativamente aos medicamentos”.

O ministro considera positivo o aconselhamento com o farmacêutico, numa lógica de proximidade, desde que seja na sua área de especialidade.

Quanto ao aumento da procura de urgências privadas, o ministro explicou-o com o facto de as pessoas procurarem sempre maior comodidade e de quererem “ter todos os serviços e todos os exames de uma vez só”.

“O que se vai fazer a um serviço de atendimento de um hospital privado é muito diferente do que se vai fazer a uma urgência médico-cirúrgica ou polivalente”, afirmou, considerando, por isso, que os serviços não são comparáveis, desde logo porque não dispõe de um “serviço de 24 horas com as mesmas características, com o mesmo tipo de especialidades e com o mesmo tipo de apoio”.

No cômputo geral, a avaliação dos últimos quatro anos de políticas de saúde é positiva, revelando que o acesso a cuidados de saúde melhorou, embora não tenha atingido os 100% na cobertura da população por médicos de família, e que as assimetrias regionais diminuíram no acesso a cuidados de saúde primários.

Paulo Macedo lembrou que ainda assim aumentou o número de utentes com médico de família e sublinhou que para um milhão de portugueses sem médico atribuído existem dois milhões que têm e não o usam, considerando que é unânime a necessidade de resolver este problema, “a questão é a forma de o fazer”.

Quanto a barreiras no acesso à saúde, o estudo indica que o preço dos medicamentos continua a representar o maior entrave – recomendando “olhar com mais cuidados para as comparticipações” – e que estas barreiras continuam concentradas sobretudo nos desempregados e nos reformados.

O ministro sublinhou o esforço que foi concentrado nestes quatro anos em baixar o preço dos medicamentos (quer genéricos quer de marca).

No entanto, esta continua a ser uma das principais barreiras, o que Paulo Macedo explica com as “condições económicas e sociais adversas” acrescidas do facto de o consumo de medicamentos não ter diminuído, pelo que se não tivesse havido baixa de preços, “o acesso à saúde teria sido muito mais difícil”.