O Ministério Público quer levar a julgamento uma técnica de análises e um médico da clínica Santo António, na Amadora, pelos crimes de negligência e intervenção médica com violação das práticas médicas.

Segundo a página na internet da Procuradoria-geral Distrital de Lisboa (PGDL), os factos remontam a 12 de novembro de 2011 quando uma técnica de análises se deslocou à clínica médica de Santo António, na Reboleira, para colher duas amostras de sangue de um doente internado e se enganou na pessoa a quem recolheu o sangue, criando duas amostras erradas.

Na sequência do ocorrido, o doente, um homem de 63 anos, foi submetido a uma cirurgia de colocação de prótese num joelho, que correu normalmente. Porém, após a cirurgia, o doente foi submetido a uma transfusão com o sangue colhido pela arguida que era incompatível com o do doente, já que este era do tipo O Rh+ e a amostra colhida era do tipo A Rh+.

O estado clínico do homem agravou-se, tendo o mesmo entrado em estado de choque sem que o médico que o assistiu nessa fase interrompesse as transfusões de sangue, apesar da agudização do estado do doente. Contrariamente ao seu dever de médico, este não averiguou sobre a compatibilidade dos tipos de sangue, defende o MP.

Posteriormente, o doente foi transferido para o Hospital Curry Cabral, em Lisboa, onde morreu a 09 de dezembro do mês seguinte.

«A morte ocorreu como consequência necessária das lesões físicas provocadas pelas oito transfusões de sangue incompatível com o doente e que haviam sido feitas com violação dos deveres de cuidado e de assistência médica exigíveis com origem na troca das amostras de sangue mal recolhidas e na evitável manutenção de uma situação clínica grave, sem que o médico assistente tomasse as medidas exigíveis», acrescenta o Ministério Público.

Um dia depois da instauração do inquérito pelo MP, o Sindicato das Ciências da Saúde considerou «redutor» responsabilizar uma técnica pela troca de sangue, tendo ainda acusado a clínica de Santo António de não ter seguido o protocolo para estes doentes.

No final de janeiro de 2012, a Inspeção-Geral das Atividades em Saúde (IGAS) identificou a prática de um crime no atendimento do doente a quem foi administrado sangue errado, tendo remetido as conclusões para o MP. Estas apontavam para uma sequência de erros humanos, que começaram na identificação incorreta do doente (para recolha de sangue para análise) e acabaram nos procedimentos médicos errados seguidos pelos profissionais da clínica perante as reações adversas do paciente.