Os médicos criticaram esta sexta-feira a ausência de estudos que comprovem a falta de profissionais, a vantagem de concentrar especialidades e a poupança, na base da criação da urgência metropolitana noturna de Lisboa, desafiando o ministro para um debate público.

Para a Ordem dos Médicos (OM), «todo o processo foi conduzido secretamente, com o único fito de esconder as suas fragilidades e os problemas potencialmente graves que vão recair sobre as vítimas urgentes e emergentes da Grande Lisboa».

Por isso, desafia o ministro da Saúde a promover um debate público, considerando que a questão é «demasiado importante para ser sigilosamente decidida por quem não sabe o que é uma urgência hospitalar».

Numa reação a declarações feitas pelo presidente da Administração Regional de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo (ARSLVT) à comunicação social, o bastonário da Ordem dos Médicos, José Manuel Silva, considerou que foram «declarações públicas muito pouco acertadas».

Ao Diário de Notícias, o presidente da ARSLVT, Luís Cunha Ribeiro, explicou que a concentração de várias especialidades numa só urgência ¿ rotativa entre Santa Maria e São José ¿ visa «garantir às populações uma resposta melhor do que a que existia».

A Ordem dos Médicos contrapõe que a ARSLVT nunca apresentou estatísticas das urgências, nem estatísticas que comprovem a falta de profissionais, para sustentar as afirmações que justificam a reorganização das urgências noturnas.

Quanto às declarações que Cunha Ribeiro fez ao Correio da Manhã, segundo as quais esta medida «é um ato de gestão de dinheiros públicos», o bastonário sublinha o reconhecimento de que esta é uma medida de gestão de dinheiro, mas critica mais uma vez a falta de estudos que indiquem «se o grau de poupança» compensa «as disfuncionalidades do sistema, as confusões de referenciação, os custos dos transportes entre instituições e o prejuízo dos tempos de atendimento às vítimas, que são inevitáveis».

Comentando a comparação que é feita pela ARSLVT com a Urgência Metropolitana do Porto, onde o Hospital de São João concentra, há quatro anos, as urgências noturnas, José Manuel Silva afirma que essa urgência «tem problemas» e lembra que a população abrangida não é comparável em termos quantitativos.

«A Urgência Metropolitana do Porto serve metade da população que será abrangida pela Urgência Metropolitana de Lisboa», pelo que deveria haver duas urgências, e «tem problemas que nunca houve interesse em auditar».

O bastonário assinala ainda que aquela urgência não concentra as especialidades de neurologia e cirurgia vascular, ao contrário do que vai ser feito em Lisboa, sem ser feito «qualquer estudo e contra o parecer dos colégios da especialidade».

Em resposta às críticas, o secretário de Estado Adjunto da Saúde acusou os médicos de estarem a emitir julgamentos sobre o processo de reorganização das urgências noturnas sem o conhecer na totalidade, o que os leva a fazer críticas sem sentido.

«Com certeza que, tanto a Ordem dos Médicos como os colégios estão a emitir, eventualmente, julgamentos sobre um processo que eles próprios ainda neste momento não conhecem na sua verdadeira dimensão, porque se o conhecessem bem, não podiam de forma nenhuma fazer as críticas que têm sido feitas», afirmou Fernando Leal da Costa após a inauguração de uma Unidade de Cuidados Continuados Integrados, em Alenquer.

Como exemplo, o governante referiu que «o próprio tempo que eles pedem é aquele que, como ontem foi anunciado pelo Ministério da Saúde, é o calendário que está previsto até ao final do ano. Portanto, desse ponto de visto estão eventualmente a pedir uma coisa que nós próprios já tínhamos decidido fazer».