A ministra da Saúde lamentou esta terça-feira a posição de alguns centros privados que se preparam para recusar casais inférteis enviados pelo Estado e espera que, depois de conhecerem a proposta do Governo, tudo se resolva, escreve a Lusa.

«Espero que essas reacções do sector privado, o qual nós consideramos importante para complementar um serviço público, sejam muito emotivas e não reais. Obviamente que lamento algumas das posições mas espero que com alguma capacidade de diálogo, e depois de conhecerem a nossa proposta, que as coisas se resolvam no bom caminho», disse Ana Jorge.

Infertilidade: privados vão recusar casais

Em Julho deverá estar já em funcionamento o sistema informático que distribuirá os casais pelos centros com menos tempo de espera, públicos ou privados.

Alguns profissionais destes centros privados ouvidos pela Lusa falam em «atentado à liberdade» e alertam para a «perversidade» do sistema. Discordam ainda da tabela de preços apresentada pelo Governo, adiantando que não estão dispostos a contratualizar com o ministério da Saúde e a receber os casais que forem encaminhados pelo Estado.

«Atinge dezenas de milhares de portugueses»

Falando à margem da inauguração da Unidade de Saúde Familiar de São Marcos, Sintra, a ministra da Saúde referiu hoje que a infertilidade «é um problema que atinge algumas dezenas de milhares de portugueses» e que gostaria que «houvesse colaboração para se encontrar a forma que beneficiasse principalmente os utentes».

Sublinhando que em Portugal existem actualmente 26 centros privados de reprodução medicamente assistida, a ministra desvalorizou ainda as críticas que consideram excessivo o número actual destes centros.

A Sociedade Portuguesa de Medicina da Reprodução (SPMR) e a Associação Portuguesa de Fertilidade (APF) consideraram hoje preocupante o «crescimento desenfreado» de clínicas privadas nesta área, não encontrando razão para a abertura de novas unidades.

O presidente da SPMR, João Silva Carvalho, disse à Lusa que dentro de pouco tempo «teremos 35 a 40 centros para dez milhões de habitantes, o que é muito mais do que os nove que existem na Bélgica» (que tem a mesma população), e que «dão uma resposta mais eficaz» do que a dada actualmente em Portugal, onde os centros públicos acumulam uma lista que obriga a tempos de espera superiores a dois anos.

Multiplicação de clínicas

Também a APF disse estar preocupada com «a multiplicação indiscriminada e geograficamente irracional das clínicas de fertilidade, em especial no sector privado», lembrando que «todos os estudos internacionais, em qualquer área da saúde, demonstram que a dispersão de meios humanos e técnicos resulta em desvantagens para os doentes, em todos os planos».

«Isso é um receio do sector privado que está com receio que abram muitos privados. Nós temos que reforçar o sector público, é isso que estivemos a fazer durante o ano de 2008», disse aos jornalistas Ana Jorge.

«Estamos a reforçar o sector público que, mesmo reforçado, não vai ter capacidade para responder a 100 por cento [às listas de espera de casais inférteis] e, portanto, aquilo que pretendemos é que o sector público responda pelo menos a 50 por cento das necessidades e que tudo o resto fosse feito em colaboração com o privado», garantiu a ministra, destacando que o Governo está «a criar um sistema informático que vai permitir dar a todas as pessoas, de uma forma igualitária, acesso aos tratamentos».

Ana Jorge destacou também que em 2008 foram abertas vagas para as especialidades de obstetrícia e ginecologia, processo que disse ter sido feito com dificuldade pois «houve algum obstáculo a que abrissem capacidades formativas nos hospitais para formar especialistas».