A greve nacional dos enfermeiros registou durante a manhã uma adesão entre os 70% e os 80%, mantendo os níveis registados já no primeiro turno (80%), o que traduz a “enormíssima insatisfação” destes profissionais, segundo o sindicato do setor.

Em conferência de imprensa, o dirigente do Sindicato dos Enfermeiros Portugueses (SEP) José Carlos Martins mostrou-se satisfeito com a adesão, referindo que “só não fizeram greve os enfermeiros que não podem suportar a perda de dois dias de salário, decorrente das políticas de empobrecimento do Governo”.

Segundo José Carlos Martins, a greve “traduz a enormíssima insatisfação generalizada dos enfermeiros”, com situações como “o corte nas carreiras, o corte nas horas noturnas e as 40 horas não pagas [aumento das 35 para as 40 horas de trabalho semanal sem aumento salarial]”.


O sindicalista destacou que melhorar as condições de trabalho dos enfermeiros “reduz 30% as infeções hospitalares, evita mortes, reduz taxas de feridas e quedas e diminui o número de reinternamentos”.

Nos cuidados de saúde primários, “evita milhares de idas às urgências e milhares de reinternamentos”.

“Valorizar os enfermeiros e melhorar as condições de trabalho é um investimento na saúde. Não percebemos que o Ministério da Saúde não apresente propostas de valorização dos enfermeiros. No concreto, porque na administração pública são os licenciados que menos ganham (cerca de 87% dos enfermeiros)”, afirmou.


José Carlos Martins questiona ainda as razões pelas quais um enfermeiro especialista investe mais de um ano a tirar uma especialidade, acartando uma melhoria da qualidade do seu trabalho e dos serviços, e recebe o mesmo que os outros enfermeiros.

Questionado sobre os enfermeiros recentemente contratados pelo Ministério da Saúde, o sindicalista reconheceu que “entre 1 de janeiro e 13 de maio foram admitidos 715 enfermeiros”, mas que “face ao volume de saída, o acréscimo de efetivos real é extremamente insuficiente”.

O número de profissionais necessários, de acordo com as contas do SEP, é 25 mil, sendo que o sindicato apresenta uma proposta de contratação de 2.500 enfermeiros/ano.

José Carlos Martins lembra que o descongelamento de mil enfermeiros para os cuidados de saúde primários, porque entram via concurso, faz co que só cheguem aos serviços daqui a dois anos.

Presentes no piquete de greve, as deputadas Carla Cruz, do PCP, e Catarina Martins, do BE, consideraram que a adesão à greve é um sinal de descontentamento dos enfermeiros contra esta política e é, simultaneamente, um sinal de força das suas reivindicações.

Para Catarina Martins, esta greve traduz um “consenso sobre a necessidade de uma alteração profunda e uma luta pelos direitos dos utentes”.

Assinalando que “os enfermeiros estão na linha da frente para acorrer aos cuidados”, Catarina Martins questiona como é que o Serviço Nacional de Saúde tem “menos capacidade de resposta”, “os utentes esperam e desesperam”, enquanto se assiste a uma enorme quantidade de jovens enfermeiros a sair do país.

A mesma preocupação foi demonstrada pela deputada do PCP, que assinalou “a falta de enfermeiros em todos os níveis de cuidados” ao mesmo tempo que se assiste “a sair para a emigração jovens que fazem falta ao país”.

Com as equipas desfalcadas, “o resultado é consultas e urgências a abarrotar e utentes que não conseguem ter os cuidados que deveriam ser feitos”, apontou, considerando que com esta greve os enfermeiros demonstram a necessidade de rutura com a política vigente e de “uma alternativa que valorize social e profissionalmente estes profissionais”.

O SEP cumpre desde as 00:00 de hoje o primeiro de dois dias seguidos de greve nacional contra a degradação das condiçoes de trabalho.