Depois de um grupo de doentes com hepatite C ter manifestado a vontade de interpor uma ação contra o Ministério da Saúde por não lhes ser administrado o medicamento Sofosbuvir, com uma taxa de sucesso na cura da doença de cerca de 90 por cento, foi a vez dos hospitais também anunciarem esta quarta-feira que vão avançar com uma providência cautelar contra a farmacêutica Gilead Sciences.
  
De acordo com o «Jornal de Notícias», os hospitais de São João e de Santo António, no Porto, os Hospitais Universitários de Coimbra, o hospital de Santa Maria e o de São José, em Lisboa, tomaram a iniciativa.

Trata-se de uma providência cautelar por abuso de posição dominante. Os hospitais vão também apresentar queixa na Autoridade da Concorrência e declarar a empresa como fornecedor hostil. 

As negociações, até à data, entre as autoridades de saúde portuguesas e a farmacêutica norte-americana não chegaram a conclusões, Mesmo com «desconto», o medicamento representa 42 mil euros por doente, quando, o preço de custo ao laboratório se fica pelos 100 euros.

Maria do Céu Machado, diretora clínica do Centro Hospitalar de Lisboa-Norte no ano passado, considerou esta quarta-feira, na antena da TVI24, o preço «completamente imoral».


A médica percebe os argumentos da farmacêutica: «Atualmente só há este medicamento com esta eficácia, [por isso] tenho que realizar o investimento este ano» porque daqui a uns anos há outro igual e os preços baixam. Uma lógica de mercado, sem dúvida, mas, o valor da vida mede-se assim, de uma forma economicista?

Uma pergunta a que a sua colega do hospital de Santa Maria, Maria Doroana, infecciologista naquela unidade de Lisboa há 35 anos, responde perentoriamente, numa entrevista à jornalista Alexandra Borges.

«A recusa sistemática do tratamento aos doentes é uma linha de conduta. A linha de conduta é: contenção de despesas».


Maria Doroana tem 160 doentes a seu cargo. Destes elegeu apenas 16 que reunissem as condições para receber o tratamento milionário. Mesmo assim, viu os 16 pedidos foram chumbados.

«Não acha bizarro que dos 16 doentes nenhum tenha critério para fazer os novos medicamentos?».


Para receberem este novo medicamento, o processo tem de ser autorizado pela comissão de farmácia do hospital e depois pelo Infarmed – a autoridade do medicamento em Portugal.

Dos 16 doentes de Maria Doroana, dez foram chumbados na comissão de farmácia do Hospital de Santa Maria e seis seguiram para o Infarmed e foram indeferidos. 

«Os doentes irão morrer de hepatite e há que responsabilizar as pessoas que recusaram sistematicamente esses pedidos», disse a médica indignada.


O presidente do Infarmed, Eurico Castro Alves,  disse esta quarta-feira acreditar que o acordo com o laboratório que comercializa o Sofosbuvir está para breve, aguardando resposta da empresa à última proposta do instituto.

Após umas longas negociações, o Infarmed acredita agora que o acordo poderá estar para «dentro de dias».

Acordo é possível se se puder «descer substancialmente os preços», acredita Luís Mendão, do Grupo para Tratamento da Hepatite C e também ele doente. 



Os doentes dizem que nada disto faz muito sentido, já que o SNS andou durante anos  a gastar milhares de euros para os manter vivos enquanto doentes com VIH-Sida.

O tempo e a luta contra o tempo dos doentes com hepatite C. Uma guerra pela vida.