Correia de Campos acusou, esta sexta-feira, o setor privado da medicina de ser o “principal defensor da ADSE”. O ex-ministro da Saúde manifestou-se contra a manutenção daquele subsistema de saúde nas mãos do Estado.

Em entrevista ao jornal i, Correia de Campos lembra que sempre foi contra a manutenção do sistema da ADSE dentro do Estado, que, em sua opinião, serve apenas para favorecer a medicina privada, que acusa de ser, em Portugal, “muito cartelizada e com preços excessivamente elevados”.

O antigo ministro da Saúde socialista, adianta, na entrevista, não fazer sentido que os funcionários públicos sejam beneficiados com um sistema de saúde que não é igual para todos os portugueses, salientando que desta forma estão a ser divididos em duas castas.

“Uma com direito a um sistema universal e tendencialmente gratuito, que são os beneficiários do Serviço Nacional de Saúde. No SNS somos todos iguais. E outra casta, em que alguns são mais iguais do que outros. Pelo facto de ser funcionário público, pode-se, pagando qualquer coisinha (isso era assim no passado) e com funcionamento público adicional, que chegou até a 1.200 milhões de euros, hoje é 500 milhões (…). Não faz sentido nenhum que os funcionários públicos sejam beneficiados com isso”, frisa.

O antigo governante lembra também que, durante algum tempo, teve uma justificação para tal facto acontecer, uma vez que “os ordenados dos funcionários públicos eram, em média, inferiores aos das pessoas com igual formação que trabalhavam no setor privado e então o doutor Salazar arranjou a ADSE. Hoje já não é assim”.

Correia de Campos diz que, enquanto ex-ministro da Saúde tentou que o subsistema de saúde dos funcionários públicos ficasse sob a tutela do Ministério da Saúde, mas não conseguiu, lamentando que a ADSE tenha sido sempre “um sistema sem muito escrutínio”.

Correia de Campos adianta, no entanto, não querer fazer uma relação causa-efeito entre o risco de destruição do SNS e o financiamento do setor privado, mas reconhece que olhando agora para os números “vê-se que o setor privado cresceu devido à largueza financeira em que tem vivido a ADSE. E mais, o setor privado é o principal defensor da manutenção da ADSE tal como está”.

“O que o sistema da ADSE está a fazer é a fazer crescer e a financiar o setor privado. Basicamente é isto”, afiança ao jornal i.

Correia de Campos adianta também que a proposta do atual Governo em alargar a ADSE aos filhos até aos 30 anos irá “destruir o Serviço Nacional de Saúde, a fragmentar” o mesmo.

“Se a ADSE é autossustentável, ou quase autossustentável, não há razão nenhuma para não ser independente, separada do Estado. Não há razão nenhuma para que ela não possa ser gerida pelos próprios funcionários através de uma associação mutualista. Assim como há os SMAS dos bancários, pode haver uma associação mutualista para os funcionários públicos”, sublinha.

De acordo com Correia de Campos, o Estado poderia ajudar no lançamento da associação mutualista, durante um prazo de entre um a três anos, autonomizando a ADSE do Estado, lembrando que o universo contributivo é “muito grande”, ultrapassando um milhão e 200 mil portugueses.

Correia de Campos considera ainda que o Governo deverá tomar uma decisão depois de conhecer o resultado do estudo encomendado à Entidade Reguladora da Saúde sobre a ADSE e as medidas necessárias que sairão da comissão criada igualmente para o efeito.

Correia de Campos, que foi mandatário nacional da candidatura de Sampaio da Nóvoa na corrida às eleições presidenciais, assumiu na entrevista estar confiante na presidência de Marcelo Rebelo de Sousa, admitindo, igualmente, que este irá “unir os portugueses”.