O presidente da Administração Regional de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo (ARSLVT) garante não estar previsto o encerramento de qualquer serviço de cirurgia cardiotorácica em Lisboa, apesar de uma auditoria concluir que há demasiada oferta nesta área.

Luís Cunha Ribeiro falava à agência Lusa a propósito de uma auditoria realizada a pedido da ARSLVT pelo cirurgião belga Paul Sergeant que avaliou os serviços de cirurgia cardiotorácica em Lisboa e recomendou a concentração de serviços, deixando de fora o Hospital de Santa Cruz.

Foram auditados os serviços dos hospitais de Santa Marta, Santa Cruz, Santa Maria e o semipúblico Hospital da Cruz Vermelha.

«Para já não está previsto o encerramento de qualquer unidade de saúde [auditada]. Está tudo em aberto», garantiu.

Luís Cunha Ribeiro esclareceu que a auditoria ¿ cujas conclusões se recusou a comentar - não recomenda o fim deste serviço no Hospital de Santa Cruz.

No documento, a que a Lusa teve acesso, são apontados vários caminhos para a cirurgia cardiovascular, mas nenhum deles inclui a permanência da cirurgia cardiotorácica no Hospital de Santa Cruz.

Luís Cunha Ribeiro frisou que as auditorias são pedidas para ajudar nas decisões e assegurou que estas vão surgir, não revelando quando.

Questionado sobre o custo desta auditoria, Luís Cunha Ribeiro disse que Paul Sergeant prescindiu do valor, por considerar que a mesma se enquadra no âmbito do seu trabalho universitário.

Auditor belga exclui Hospital Santa Cruz

O cirurgião belga que esteve a auditar os serviços de cirurgia cardiotorácica em Lisboa e recomendou a concentração de serviços, deixando de fora o Hospital de Santa Cruz, mas considerando que «faz sentido» manter o semipúblico Hospital da Cruz Vermelha.

As conclusões do relatório, a que a agência Lusa teve acesso, estão a preocupar os profissionais do Hospital de Santa Cruz, nomeadamente os médicos do serviço auditado, que não sabem o que a tutela vai fazer com as recomendações de Paul Sergeant, nas quais não está definido um futuro para esta unidade de saúde.

Mas também nos outros hospitais públicos visados ¿ Santa Marta e Santa Maria ¿ o relatório não foi bem recebido, tendo mesmo levado o diretor do serviço de cirurgia cardiotorácica do Centro Hospitalar de Lisboa Norte (Santa Maria e Pulido Valente) a escrever à Ordem dos Médicos para que esta se pronunciasse.

Concluiu Paul Sergeant que, com uma melhor organização, são suficientes dois hospitais públicos para a prática de cirurgia cardiotorácica, embora defenda a continuidade do acordo que o Estado tem com o Hospital da Cruz Vermelha, que é semipúblico, para suprimir eventuais necessidades nesta área.

A auditoria identificou uma «considerável duplicação de atividades e serviços na região de Lisboa, sem que tal resultasse em benefícios para os doentes ou a sociedade». As listas de espera também mereceram críticas do cirurgião, bem como a ausência de uma monitorização das mesmas e dos doentes após as cirurgias.

Paul Sergeant considera que devem existir dois centros de cirurgia cardíaca, «bem estruturados e bem organizados», em Lisboa, e que a escolha natural são os hospitais de Santa Marta e Santa Maria.

A cirurgia torácica deve ser concentrada no Hospital de Santa Maria e a cirurgia congénita no Santa Marta, defende o cirurgião, para quem os transplantes cardíaco e pulmonar devem fazer-se no Hospital de Santa Marta, em «estreita colaboração» com o de Santa Maria.

Rui Ferreira, coordenador do Programa Nacional para as Doenças Cérebro-Cardiovasculares e um dos auditores que acompanhou Paul Sergeant, esclareceu à Lusa que se trata apenas de recomendações: «Têm de ser os decisores políticos a decidir».

O especialista ¿ que exerce no Hospital de Santa Marta, uma das instituições auditadas - nega que seja sugerido o fim do Hospital de Santa Cruz, embora no relatório não seja indicado qual o seu papel nas áreas auditadas.