O socialista António Arnaut defendeu que o Serviço Nacional de Saúde (SNS) é uma das principais conquistas do 25 de Abril e «faz inveja a muitos países» da Europa, apesar da alegada desqualificação «em benefício dos privados».



Em entrevista à agência Lusa, o fundador do SNS realçou que este serviço público, «trave mestra do Estado Social e da democracia» em Portugal, foi alvo de ataques «que obedeceram a um plano» de sucessivos governos.



Considerado uma conquista social «filha primogénita da Revolução de Abril», o Serviço Nacional de Saúde «tem sido nos últimos anos - e não apenas com este Governo - objeto de uma desqualificação no sentido de o degradar em benefício dos privados», acusou.



«As malfeitorias que fizeram ao SNS foram programadas», reiterou António Arnaut, considerando que diferentes governos quiseram «desqualificá-lo progressivamente», para que «a classe média preferisse a medicina privada, em benefício dos grupos privados de saúde».



Esta desqualificação passou pelo «impedimento de contratar pessoal», sobretudo médicos e enfermeiros, «restrição de medicamentos e certos meios auxiliares de diagnóstico» e imposição de «taxas moderadoras excessivas, que são verdadeiras formas de copagamento», de acordo o antigo ministro de

Mário Soares.



O SNS chegou a ser «um dos mais qualificados da Europa e do mundo, com indicadores sanitários conhecidos que agora se estão a degradar», lamentou. António Arnaut salientou que «o país tem hoje uma estrutura física e técnica que faz inveja a muitos outros países» da União Europeia.



«E chegámos ao panorama hoje conhecido, com dificuldade de acesso e pessoas que morrem sem assistência médica», criticou.



A propósito, Arnaut recordou casos recentes, como o de um jovem que sofreu um acidente grave, na zona de Chaves, mas teve de ser assistido num hospital de Lisboa, ou de uma mulher a quem foi diagnosticado «um cancro em estado avançado» após ter esperado dois anos por uma colonoscopia.



«Quem é que é responsável por isso? Tem de ser o ministro da Saúde e o Governo em geral. E nós somos também todos responsáveis por não levantarmos a voz» em defesa desta «grande conquista» do 25 de Abril, concluiu.



Enumerando «as três faces inseparáveis» do regime democrático - «democracia política, democracia económica e democracia social» -, Arnaut afirmou que «tudo isto está em causa» e não apenas o SNS.



«Já não temos praticamente democracia digna deste nome. Estamos numa situação comparável, em muitos aspetos, ao pré-25 de Abril, de medo, pobreza e desemprego», considerou.



Quando eclodiu a Revolução dos Cravos, em 1974, o futuro deputado do PS na Assembleia Constituinte «tinha saudades do futuro», após ter integrado a oposição à ditadura de Salazar e Caetano.



Quarenta anos depois da Revolução dos Cravos, «digo que tenho saudades do 25 de Abril», revelou, para ressalvar, porém, que, em termos gerais, a atual situação «é muito melhor» do que era em 1974.