O presidente do Colégio da Especialidade de Doenças Infecciosas da Ordem dos Médicos demarcou-se esta quarta-feira do comunicado emitido pelos seus colegas de saúde pública, no qual afirmam que o risco de Portugal vir a ter casos de Ébola é alto.

Presente esta quarta-feira na Comissão Parlamentar de Saúde, na companhia dos responsáveis da DGS (Direção Geral de Saúde), do INEM (Instituto Nacional de Emergência Médica) e do INSA (Instituto Nacional de Saúde Ricardo Jorge), Fernando Maltez disse ainda que «depois de uma reunião com a direção do colégio da especialidade» a que preside será tomada uma posição conjunta com o colégio de medicina tropical.

Com esta declaração, o responsável aludia também ao facto de alegadamente o comunicado em causa ter sido feito sem que todos os elementos do colégio da especialidade de saúde pública tenham sido consultados.

A denúncia foi feita pelo diretor-geral da Saúde, que revelou que «o colégio não teve reunião formal e não debateu o assunto de forma normal».

«Já falei com o colega relator e marcámos um encontro para muito breve», disse Francisco George, afirmando que discorda dele e que «há um afastamento entre a linha preconizada no comunicado em causa e o trabalho que a DGS tem feito».

O diretor-geral da Saúde especificou que o colégio não se reuniu para aprovar o documento – já publicado no site da Ordem dos Médicos - e que membros do colégio vão pedir uma reunião do órgão para o apreciar.

Nesse documento, assinado por Pedro Serrano, da direção do colégio da especialidade de saúde pública, e noticiado pela imprensa, os especialistas consideram que «o risco teórico de virmos a ter casos de Ébola em Portugal é alto» e que isso está «fortemente associado ao posicionamento de Portugal como país integrante daquilo que se convencionou chamar Países de Língua Oficial Portuguesa».

Os especialistas fazem ainda uma contextualização das relações, geográficas e humanas de vizinhança dos três países onde grassa a epidemia (Serra Leoa, Guiné-Conacri e Libéria) e os países lusófonos com permanente ligação a Portugal: Guiné-Bissau, Angola, São Tomé e Príncipe, Cabo Verde e, mais remotamente (em termos de risco de exportação), Moçambique.

«Dadas as antigas e fortíssimas relações de proximidade e de actual plataforma giratória entre este grupo de países, nenhum outro país europeu está tão em risco de ser contaminado do exterior, a partir dos grandes centros de foco da doença em África, como Portugal», refere o parecer publicado no site da Ordem dos Médicos.

O documento sublinha os sistemas da saúde frágeis destes países, considerando «praticamente inexistente» a vigilância epidemiológica (particularmente a de nível local).

Os especialistas defendem ainda que é «evidente e urgente que seja montada, implementada ou reforçada em Portugal uma apertada vigilância dos aeroportos e portos, o que incluiria uma presença permanente de estruturas de Saúde Pública e a formação em medidas de Saúde Pública do pessoal aeroportuário que controla a entrada de passageiros».

«Seria também importante criar uma base de dados com os portugueses que residem nestes e noutros países de África considerados de risco, de molde a conseguir monitorizar as deslocações entre zonas de risco e a fazer-lhes chegar informação sobre as medidas a adoptar para a sua segurança», acrescentam.

No parecer, os especialistas do colégio de saúde pública consideram ainda que Portugal não está preparado para lidar com o vírus do Ébola e que as autoridades têm emitido «mensagens de enganosa tranquilidade».

Os mais recentes dados apontam para o registo de 8 917 casos, dos quais 4447 se revelaram mortais, sendo a Libéria, Serra Leoa e a Guiné-Conacri os países mais afetados pelo pior surto de Ébola.